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"Atirar para matar" com apoio do Estado e da opinião pública

(sm)25 de julho de 2005

Imprensa britânica julga caso do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, baleado pela polícia londrina por engano. Londres endossa tática de "atirar para matar".

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De 31 mil policiais londrinos, apenas três mil têm licença de carregar armas. Mas agora, a tática não é mais atirar para deter, mas sim para matar...Foto: AP

A imprensa britânica reagiu ao erro policial que culminou com a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, criticando a falta de transparência da Scotland Yard e a irrelevância das sensibilidades das minorias étnicas diante do perigo de terrorismo.

Jean Charles de Menezes, Porträt, fälschlicherweise in London erschossen
Jean Charles de Menezes, baleado por engano pela polícia britânica em Londres, no dia 22 de julhoFoto: AP

"Foi um deslize do ministro do Exterior, Jack Straw, ter negado que isso foi um grande baque para a polícia", julgou o jornal britânico liberal de esquerda The Guardian. "O chefe da Scotland Yard, Sir Ian Blair, sabe muito bem o quanto um equívoco desses pode pesar. O maior erro de todos, no entanto, foi não ter preparado a opinião pública para as cenas de violência que o país ainda vai viver. Mesmo enquanto ainda se pensava que o Sr. Menezes era um terrorista suicida, testemunhas oculares se mostraram horrorizadas com a brutalidade com a qual ele foi morto."

Prevenção de terrorismo, prioridade máxima

O diário conservador britânico The Daily Telegraph, por sua vez, criticou a falta de tato da Scotland Yard em sua justificativa do ocorrido: "Na tentativa de explicar por que Jean Charles de Menezes recebeu cinco tiros na cabeça, o chefe da Scotland Yard, Sir Ian Blair, declarou que a ação policial não foi a 'causa profunda' da morte do Sr. Menezes. Esta foi apenas a mais recente de uma série de declarações que podem ser mal entendidas. Perguntamo-nos se a polícia londrina tem a chefia que merece".

"A prevenção contra outros atentados deve ser a prioridade máxima da polícia; palavras bonitas em coletivas de imprensa realmente podem ser relegadas a segundo plano. Às vezes, estas prioridades são até mesmo inconciliáveis, por exemplo, quando o vice de Sir Ian, Brian Paddick, se recusa a associar mesmo de longe os terroristas ao islamismo – o que é uma verdadeira bobagem. Em Nova York, o chefe da polícia quebra a cabeça sobre questões de segurança e com sensibilidades de minorias étnicas."

Direito de atirar, mesmo após morte de inocente

O colunista Bruce Anderson, do Independent, endossou a estratégia da Scotland Yard, afirmando que "a polícia tem o direito de atirar, mesmo se desta vez ela tenha acertado o homem errado". "Ninguém que se comporta como o Sr. de Menezes pode ser poupado dos acontecimentos atuais. Ao considerarmos a morte de Menezes, é importante manter o senso de proporção. (...)"

"No mais perigoso dos contextos, um homem se comporta de forma suspeita. Recusando-se a parar, ele sai correndo para dentro da estação de metrô. Os policiais o perseguem, embora possam estar correndo em direção à sua própria morte. Eles o alcançam e o eliminam da maneira planejada para minimizar o risco de se detonar uma bomba."

"Regras claras" para policiais

Jack Straw, Britischer Außenminister
Jack Straw, ministro britânico do ExteriorFoto: AP

Ao que tudo indica, a intenção de Londres é manter a estratégia de "atirar para matar" em caso de suspeita de terrorismo, mesmo em detrimento da segurança da população civil. O ministro britânico do Exterior, Jack Straw, defendeu a atuação da Scotland Yard e destacou a importância de a polícia enfrentar a ameaça de atentados suicidas. "Obviamente, a morte de Menezes é profundamente lamentável, mas temos que levar em conta a pressão sob a qual os policiais trabalham. Temos que assegurar regras claras nesta prática."

O comissário-chefe da Scotland Yard, Sir Ian Blair, admitiu que a polícia poderá vir a disparar contra mais alguém em algum cerco contra possíveis terroristas suicidas. Ele confirmou que a prática policial que culminou com a morte de Menezes será mantida, explicando que, quando o terrorista carrega explosivos no corpo, não haveria outra alternativa, a não ser baleá-lo na cabeça.

Basta aparência "suspeita"

Sir Ian Blair sucht Verbündete gegen den Terrorismus
Sir Ian Blair busca nas minorias étnicas aliados contra o terrorismoFoto: AP

A polícia britânica aprendeu este método de combater terroristas suicidas com as Forças Armadas de Israel, conforme confirmou à mídia britânica o antecessor de Ian Blair na chefia da Scotland Yard, Lord Stevens. Embora a polícia não se refira a uma nova tática, há indícios suficientes de que a divisa "shoot to stop", atirar para deter, foi substituída por "shoot to kill", atirar para matar.

A organização de defesa dos direitos humanos Liberty exigiu uma investigação abrangente do caso Menezes. A União Muçulmana da Grã-Bretanha declarou que os muçulmanos estariam com medo de sair nas ruas e pegar o metrô: "Dar a alguém a licença para matar por causa de uma suspeita é algo que põe medo nas pessoas", declarou o porta-voz Tazzam Tamimi à BBC. Para Tamimi, o mais problemático é o fato de a mera aparência da pessoa ser razão suficiente de suspeita.