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Brasil investe em hidrelétricas e usinas de biomassa

Geraldo Hoffmann30 de janeiro de 2006

Ministra Dilma Rousseff apresenta na Alemanha dez novos projetos para o setor, entre eles, a construção de duas grandes hidrelétricas no Norte do país. Falta de infra-estrutura é gargalo do crescimento econômico.

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Ministra da Casa Civil apresenta projetos em FrankfurtFoto: DW/Geraldo Hoffmann

O governo brasileiro planeja realizar em 2006 um processo de licitações para a construção de dez novas hidrelétricas, com custos orçados em 9,4 bilhões de dólares e capacidade para gerar 7846 megawatts de energia.

O anúncio foi feito pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em palestra a 150 empresários alemães e brasileiros, que participaram de uma conferência sobre investimentos em infra-estrutura e logística no Brasil, nesta segunda-feira(30/01), em Frankfurt.

Oito desses projetos serão licitados em leilões previstos para maio próximo. As duas maiores usinas – em Santo Antônio e Jirau – no Rio Madeira, em Rondônia, serão licitadas em junho e terão, juntas, capacidade para gerar 6450 MW. “São dois projetos importantes, com significado estratégico, para garantir estabilibidade energética até 2013, mesmo que o consumo aumente em média 5% ao ano“, disse a ministra.

“As energias limpas têm prioridade para nós, mas não vamos prescindir de outras fontes. O Brasil volta a construir hidrelétricas, porque é a forma de energia mais barata”, explicou Rousseff. Segundo ela, inclusive o Banco Mundial (BID) teria manifestado interesse em participar desses dois projetos. Os estudos de impactos ambiental já estão sendo analisados desde maio de 2005 pelo Ibama e devem ser concluídos até maio próximo.

A ministra disse que, no setor energético, o Brasil já fez os deveres de casa. “Noventa e cinco por cento da energia necessária até 2010 está contratada pelo sistema de leilões”, disse. Além disso, acrescentou, nos últimos três anos o país ampliou sua linhas de transmissão em 10 mil quilômetros, sendo que os espanhóis investiram mais nesse setor no Brasil do que os alemães.

Investitionsabkommen für Brasilien
Paulo Godoy, presidente da ABDIB, Luiz Fernando Furlan, ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Uriel Sharef, da diretoria da SiemensFoto: DW/Geraldo Hoffmann

A ministra disse à DW-WORLD que não teme críticas de ecologistas às duas grandes hidrelédricas, “porque elas ficam foram da área da Floresta Amazônica e, devido à caracterítica do rio, nos locais escolhidos não haverá grandes inundações. Ou é isso, ou teremos de optar pela térmica nuclear, a persistir no exterior a visão distorcida do que é uma hidrelétrica no Brasil”.

Ela explicou que, como o Brasil produz gás insuficiente e o carvão é de baixíssima qualidade, o país precisa recorrer às hidrelétricas garantir a carga básica de energia. "Só aproveitamos 24% do nosso potencial hídrico. Sem hidrelétricas, voltariam à mesa de discussão as térmicas nucleares, como está acontecendo na Europa, e nós não precisamos delas”, argumentou.

Ela ressaltou que 43% da energia consumida no Brasil vem de fontes renováveis, enquanto esse percentual na matriz energética mundial é de 14% e, na OCDE, de apenas 6%. E que o país em 2006 passará a ser exportador de petróleo. As usinas de biomassa são a segunda prioridade da matriz energética brasileira, acrescentou.

“Fizemos bem nosso dever de casa na área da energia, onde temos um estrutura sustentável e estável. Agora queremos atingir o mesmo na área de logística, mas também aqui já começamos a decolar”, disse.

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Rodovias, ferrovias, porto e logística

Paulo Godoy
Paulo GodoyFoto: DW/Geraldo Hoffmann

A delegação brasileira em Frankfurt tentou convencer os empresários alemães a investir também em outros projetos de infra-estrutura, como a construção e modernização de estradas, ferrovias e portos.

À semelhança da reestruturação feita na matriz energética, o governo quer reordenar também a infra-estrutura de transportes, investindo mais em ferrovias e cabotagem, para diminuir a dependência das rodovias sobrecarregadas. “Mudar isso vai levar anos, mas é inexorável“, disse Rousseff.

Em Frankfurt foram discutidos ainda nove projetos para a construção de mais de três mil quilômetros de rodovias federais, a serem licitadas ainda no primeiro trimestre de 2006, com investimentos previstos de 3,1 bilhões de dólares. Além disso, estiveram na pauta um trecho de 390 quilômetros da ferrovia Norte-Sul, dois projetos de Parceria Público Privada (PPP) do governo federal e quatro propostas de PPPs dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Bahia (veja link abaixo).

Na abertura do encontro, Uriel Sharef, da diretoria da Siemens, citou dados da Confederação Nacional da Indústria segundo os quais o Brasil precisa realizar investimentos anuais de 38,2 bilhões em infra-estrutura nos próximos anos, dos quais 20 bi em energia, 9 bi em logística, 4,5 bi em estradas, 3 bi em ferrovias.

“Um dos gargalos do crescimento econômico brasileiro é a infra-estrutura”, advertiu o presidente da Associação Brasileira de Infra-estrutura e Indústrias de Base (ABDIB), Paulo Godoy. Ele disse que os alemães já perderam terreno para os espanhóis na construção de linhas de transmissão no Brasil, mas os consolou: “O Brasil é um celeiro de projetos, é um porto seguro para investimentos externos”.

O vice-ministro alemão da Economia e Tecnologia, Bernd Pfaffenbach, no entanto, cobrou do governo brasileiro mais garantias para os investidores: a aprovação de uma lei de fomento e proteção aos investimentos, a assinatura de um novo acordo sobre bitribução e a redução de suas taxas sobre importação de produtos industriais, dentro da Rodada Doha da OMC. “Esperamos que o Brasil faça na economia o que faz no futebol: atacar mais do que se defender.”

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Polêmica sobre OMC

Bernd Pfaffenbach
Crítica ao Brasil: vice-ministro Bernd PfaffenbachFoto: DW/Geraldo Hoffmann

A observação de Pfaffenbach levou o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, a se desviar do tema da conferência. “Quem sabe, se a Alemanha ganhar a Copa do Mundo, faça concessões na OMC”, rebateu.

Segundo Furlan, no Fórum Econômico de Davos houve uma certa polarização entre Brasil e União Européia na questão da OMC, “mas essas negociações não são como uma partida de futebol, que, empatando, vai para os pênaltis. Não pode haver perdedores, em se tratando da liberalização do comércio mundial”.

O ministro argumentou que os potenciais mercados para a alta tecnologia dos países industrializados precisam ter acesso para seus produtos no mercado mundial. Com ou sem OMC, o Brasil e países semlhantes vão ganhar a guerra da agricultura, As exportações agrárias brasileiras vão continuar crescendo, mesmo com barreiras. Seria inteligente da parte dos europeus negociar agora e não esperar até que a batalha esteja perdida.

O ministro reiterou que o Brasil está desonerando o capital, inclusive no setor de construção civil, para criar um ambiente favorável aos investimentos estrangeiros. “Estamos estimulando também as empresas brasileiras a se transformar em multinacionais. O Brasil está numa rota de crescimento, e quem apostar neste momento terá bons resultados”.

Apesar de argumentar que as PPPs oferecem a segurança exigida pelos investidores, ao final do encontro Rousseff disse à DW-WORLD que não sentiu “empolgação” dos alemães pelos projetos brasileiros. “Gostaríamos muito de contar com mais investimentos alemães, principalmente na área de energia, mas a relação com eles é diferente do que com outros países europeus. Acho que eles estão olhando demais para a Ásia“, concluiu.