Como o neto de uma judia se tornou mercador de arte de Hitler

Há anos o mundo da arte se ocupa com o caso de Hildebrand Gurlitt. Livro recém-lançado mostra como ele se tornou negociante de arte dos nazistas, apesar ou precisamente devido à sua origem judaica.

O negociante de arte alemão Hildebrand Gurlitt era um aficionado por arte moderna. Mas quando nazistas chegaram ao poder e baniram a arte considerada "degenerada" – formada principalmente por obras modernas e inovadoras – ele resolveu misturar seu amor à arte com negócios.

Os nazistas confiscaram as obras de arte que condenavam ou as compraram por valores irrisórios. Em 1938, eles reconheceram o potencial financeiro dessas obras-primas e, em vez de simplesmente exibi-la para fins de propaganda, decidiram vendê-las no exterior e encher os cofres do Reich.

Para esse chamado "exercício de capitalização" foram procurados comerciantes especializados. Hildebrand Gurlitt se candidatou para a tarefa ao nono departamento do Ministério de Esclarecimento Público e Propaganda e se tornou um dos quatro negociantes de arte do regime. Até 1944, ele realizou milhares de negócios para os nazistas e coletou quadros para o planejado museu de Hitler em Linz.

À procura de proteção

Antes de ter iniciado seus negócios com o regime nazista, Hildebrand Gurlitt era diretor do Museu Rei Albert em Zwickau, onde queria montar uma coleção de arte moderna. No entanto, seu gosto por trabalhos artísticos de vanguarda não agradava a todos, de forma que ele acabou sendo demitido sob pressão da burguesia conservadora. Posteriormente, ele também foi afastado de seu cargo como novo diretor da Kunstverein em Hamburgo, associação que se dedica à coleção de arte contemporânea.

Meike Hoffmann é autora de "O negociante de arte de Hitler"

A historiadora da arte Meike Hoffmann pesquisou sobre a história de vida de Gurlitt. Junto a Nicola Kuhn, redatora do jornal berlinense Tagesspiegel, ela lança agora a biografia Hilters Kunsthändler (O mercador de arte de Hitler). Para Hoffmann, foi importante mostrar o desenvolvimento de Gurlitt desde os primeiros tempos. Em entrevista à DW, a autora afirmou querer descobrir por que "ele se deixou arrastar pelo turbilhão, se deixou corromper e como lidou com aqueles complicados mecanismos."

Uma motivação importante para Gurlitt foi sua origem judaica. Sua avó era judia, o que o fazia "um quarto judeu". Por meio de seu trabalho para os nazistas, ele desfrutou da "proteção" dos alemães e pôde, ao mesmo tempo, continuar trabalhando com obras que sempre foram suas favoritas, explicou Hoffmann.

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NOTÍCIAS | 15.05.2014

Qual será o destino do tesouro de Munique?

Negócios rentáveis

Em 400 páginas, a biografia de Gurlitt mostra, além da história pessoal, as estações de sua carreira, como era a sua atuação em negócios para o regime de Hitler com vista a conseguir o maior lucro possível. Para tal, dos trabalhos confiscados, Gurlitt "escolhia deliberadamente obras-primas, porque sabia que esses artistas eram bem cotados no mercado internacional, e ele logo poderia se distinguir como um grande provedor de divisas", afirma a historiadora da arte.

Uma parte desses trabalhos terminou na própria coleção pessoal de Gurlitt. "Uma ou outra obra foi, certamente, adquirida por interesse pessoal. Mas, em grande parte, trata-se de obras que sobraram e que ele não pôde vender a museus alemães", diz a autora.

Pesquisa detalhada

Após a guerra, em 1948, Gurlitt se tornou diretor da Kunstverein da Renânia e Vestfália. Ali, com o seu trabalho, ele "iniciou o processo de ressarcimento da modernidade clássica", explica Hoffmann.

Capa do livro "Hitlers Kunsthändler"

As informações sobre Hildebrand Gurlitt foram encontradas pela historiadora da arte em arquivos de museus. "Ainda hoje, em quase todos os arquivos de museus na Alemanha e, sobretudo, na Suíça, França e Inglaterra, há correspondências com Hildebrand Gurlitt, já que ele manteve durante todo o tempo um contato intenso com todos essas instituições", disse Hoffmann à DW.

Os Arquivos Federais da Alemanha também serviram de fonte. Um golpe de sorte e um ponto de partida para o livro foi a aquisição de correspondências e documentos do ano 1943/44. Andreas Hünecke, um colega da historiadora, comprou essas fontes importantes pela internet. "Foi ali que comecei lentamente a pensar numa publicação sobre Hildebrand Gurlitt", explicou a autora.

"Força-tarefa Gurlitt"

Nos últimos anos, os negócios de arte da família Gurlitt marcaram decisivamente a vida profissional de Meike Hoffmann. Ela não pesquisou somente sobre Hildebrand Gurlitt, mas também sobre o seu filho Cornelius, em cujo apartamento foram encontradas, em 2012, mais de mil obras de arte, entre elas, trabalhos de Marc Chagall, Max Liebermann, Henri Matisse e Pablo Picasso.

Todos os quadros foram aprendidos. Muitos deles estavam sob a suspeita de serem arte roubada pelos nazistas. No final de 2013, o chamado "Tesouro de Munique" se tornou público. Em seguida, o governo alemão formou uma força-tarefa para determinar a origem das obras de arte. O objetivo era saber se alguns dos trabalhos foram saqueados pelos nazistas, para devolvê-los aos seus devidos proprietários e herdeiros.

Meike Hoffmann também fez parte dessa força-tarefa contratada para pesquisar a proveniência das obras. O grupo foi dissolvido depois de quase dois anos. O resultado da pesquisa foi esclarecedor: das 499 obras suspeitas, somente quatro puderam ser identificadas inequivocamente como arte roubada pelos nazistas. No caso de outros dois quadros, cuja proveniência pôde ser esclarecida, há uma forte suspeita de terem sido roubados pelo regime de Hitler.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Henri Matisse (1869-1954)

Fotografias de obras de arte do "Tesouro de Munique" como "Mulher sentada", do pintor francês Henri Matisse, foram publicadas na plataforma lostart.de. Os quadros foram confiscados do apartamento de Cornelius Gurlitt em 2012 e são suspeitos de terem sido extorquidos de proprietários judeus pelo regime nazista.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Marc Chagall (1887-1985)

Também a "Cena alegórica", do famoso pintor francês Marc Chagall foi encontrada entre as obras confiscadas. O chamado "poeta entre os pintores", de origem russo-judaica, é considerado um dos mais importantes artistas do século 20. Seu trabalho é associado ao estilo expressionista.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Wilhelm Lachnit (1899-1962)

O pintor alemão Wilhelm Lachnit realizou a maior parte de seus trabalhos na cidade de Dresden. Sua arte era voltada contra o nazismo. Em 1933, sua obra, qualificada como "arte degenerada", foi confiscada e o pintor, preso. Durante os bombardeios a Dresden em 1945, a maior parte de seu trabalho foi destruída. Agora, algumas de suas obras ressurgem, como é o caso de "Menina à mesa".

Quadros do "Tesouro de Munique"

Otto Griebel (1895-1972)

A obra do alemão Otto Griebel é classificada como pertencente ao movimento artístico Nova Objetividade. Após a Primeira Guerra Mundial, ele se afiliou ao Partido Comunista alemão e mais tarde fundou o "Grupo Vermelho", em Dresden. Sua arte "proletária-revolucionária" não agradava os nazistas. Ele foi preso em 1933 e sua obra foi qualificada de "arte comunista". Aqui, o quadro "Mulher de véu".

Quadros do "Tesouro de Munique"

Erich Fraass (1893-1974)

O pintor Erich Fraass é da chamada "geração perdida" de artistas alemães, cuja arte foi amplamente reprimida e proibida pela propaganda nazista. Ele pertencia à direção do grupo "Nova Secessão de Dresden", dissolvido pelos nazistas em 1934. "Mãe e filho" também consta do acervo de Gurlitt.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Ludwig Godenschweg (1889-1942)

Ludwig Godenschweg era escultor e gravurista. Além desta sua gravura, "Retrato de um homem", também foi encontrada na casa de Gurlitt a obra "Nu feminino". Segundo o jornal "Die Zeit", ambas podem ter sido confiscadas da coleção do advogado Fritz Salo Glaser, de Dresden. Seus herdeiros reclamam agora a posse das obras.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Fritz Maskos (1896-1967)

Pouco se sabe sobre o escultor alemão Fritz Maskos, autor de "Mulher contemplativa". Tido como artista controverso, ele criou obras como a escultura de bronze "O líder". Sua obra "Sonâmbulo" foi exposta em 1938 em Berlim como "arte degenerada". Seu pastel "Natureza morta do fim do verão" pôde ser vista na Grande Exposição de Dresden, em 1943.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Edvard Munch (1863-1944)

Diversas obras do pintor norueguês Edvard Munch foram encontradas na coleção de Gurlitt. O artista influenciou o Expressionismo e o Modernismo. Seu trabalho mais famoso, "O grito", foi roubado em 2004 do museu de Oslo e recuperado em 2006. A obra "Noite, melancolia I" é datada de 1896.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Franz Marc (1880-1916)

O guache "Paisagem com cavalos", de Franz Marc, é uma das 11 obras do "Tesouro de Munique" apresentadas pela primeira vez publicamente numa coletiva de imprensa em Augsburg.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Otto Dix (1891-1969)

Autorretrato cuja existência era, até então, totalmente desconhecida, não tendo sido publicado nem no catálogo de obras do artista alemão nem em qualquer outro lugar. Estima-se que date de 1919, contando, portanto, entre as raras obras que Otto Dix realizou depois da Primeira Guerra Mundial.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938)

Xilogravura "Menina melancólica", também apreendida no apartamento do Cornelius Gurlitt, em Munique, encontrava-se originalmente no Salão de Arte de Mannheim.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Antonio Canaletto (1697-1768)

O achado histórico no bairro de Schwabing não inclui apenas pinturas modernistas. Os investigadores e a historiadora de arte Meike Hoffmann também apresentaram uma paisagem do italiano do século 18 Giovanni Antonio Canal, apelidado Canaletto.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Gustave Courbet (1819-1877)

Esta "Garota com cabra" do realista francês foi confiscada pelos nazistas e leiloada apenas em 1949, informou a historiadora de arte Meike Hoffmann. Portanto, só após a Segunda Guerra Mundial o quadro de Courbet entrou para a coleção Gurlitt.

Quadros do "Tesouro de Munique"

Max Liebermann (1847-1935)

"Dois cavaleiros na praia". Outros desenhos e esboços do principal representante alemão do Impressionismo também integram o "Tesouro de Munique".

Quadros do "Tesouro de Munique"

Max Beckmann (1884-1950)

Esse "Domador de leões" da coleção de Gurlitt já fora descoberto dois anos atrás numa casa de leilões em Colônia. Ele pertencia provavelmente ao marchand judeu Alfred Flechtheim, que abandonou todo seu acervo ao fugir da Alemanha. Seus herdeiros reivindicam o quadro.

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