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Debate republicano entre propostas e bizarrices

Michael Knigge (mp)5 de agosto de 2015

Maior evento do calendário das presidenciais até aqui reúne os dez candidatos mais bem posicionados nas pesquisas. Dúvida é se eleitores verão discussão construtiva ou mais um espetáculo midiático comandado por Trump.

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Foto: picture-alliance/dpa/J. Lane

Na semana passada, o magnata Donald Trump foi ao Twitter para contar, a seus mais de 3 milhões de seguidores, que pretendia ser "altamente respeitoso" com os outros pré-candidatos republicanos nesta quinta-feira (06/08), dia do primeiro debate das primárias do partido.

Os outros nove candidatos – os melhores colocados nas pesquisas de opinião – que estarão no palco com ele no evento em Cleveland têm razões, porém, para receber tal mensagem com ceticismo: Trump fez exatamente o contrário desde que anunciou a intenção de concorrer à Casa Branca.

Seu estilo é marcado por agressões aos adversários. Um dos exemplos de maior impacto aconteceu há poucos dias, quando ele, também no Twitter, escreveu comentários ofensivos sobre a mulher de Jeb Bush, que é mexicana. Mais tarde, ele apagou o post. Trump também causou polêmica com comentários sobre imigrantes e sobre o ex-candidato republicano à presidência e herói de guerra John McCain.

Certeza de manchetes

O papel supervalorizado do empresário e o fato de as primárias republicanas serem as maiores da história moderna americana – são 19 pré-candidatos até aqui – fazem analistas questionarem se realmente faz sentido fazer um debate nesta altura da campanha.

“Neste ponto das primárias – seis meses antes de qualquer votação – o debate é um show de horrores. Não importa quantos candidatos estão no palanque”, opina o especialista em retórica política Jennifer Mercieca, da Universidade Texas A&M.

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Jeb Bush foi um dos alvos dos ataques de TrumpFoto: Reuters/C. Allegri

Para Mercieca, o debate está planejado para gerar audiência na Fox News e no Facebook, que vão transmiti-lo. Também pode dar a chance de os candidatos gerarem manchetes que acabem permitindo atrair mais dinheiro as suas campanhas.

“Um debate com dez pessoas – principalmente com a presença de Donald Trump e outros candidatos republicanos controversos – vai gerar bons índices de audiência”, diz Mercieca. “Vai ser bom para a televisão. O Twitter vai adorar. Mas este debate é mais relacionado a entretenimento do que ao processo democrático.”

Adam Seth Levine, especialista em comunicação política na Universidade Cornell, avalia o debate de forma diferente. Ele concorda que o estágio das primárias ainda é inicial e que o formato, com dez candidatos, deixa pouco espaço para contribuições substanciais por parte deles.

Mas, mesmo com essas limitações, ele acredita que ainda pode ser útil para candidatos e eleitores. Considerando que muitos americanos ainda não estão familiarizados com a maioria dos candidatos, Levine diz que o debate oferece a possibilidade do público selecionar os nomes que mais lhe agradam.

Por ser difícil para os eleitores julgar um número grande de candidatos diante de vários temas com potencial de debate, os candidatos precisam colaborar. Por isso esse evento em Cleveland tem um significado mais amplo do que “simplesmente o estabelecimento das agendas”, diz Levine.

Trump como parâmetro

Donald Trump se tornou mestre na arte de estabelecer temas na campanha. Seus comentários sobre imigração são reiteradamente observados e amplificados pela mídia. Ele não força todos os candidatos a tomarem posições sobre um assunto específico, mas faz com que a sua opinião se torne um parâmetro pelo qual os eleitores julgam os seus adversários.

“Em pouco tempo, os comentários de Trump sobre imigração acabam estabelecendo uma questão na pauta da campanha. É claro que isso necessariamente não favorece Jeb Bush, uma vez que muitos eleitores das primárias republicanas não concordam com seus planos de ampla reforma [na lei da imigração]”, diz Levine.

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Declarações de Trump sobre imigração ilegal acabaram pautando tema na campanhaFoto: John Moore/Getty Images

Se existe um candidato que tem mais a perder neste debate, é Jeb Bush. Com seu nome e histórico, ele não é somente o mais proeminente republicano na disputa – ao lado de Trump –, mas também é extremamente bem financiado. Logo, ele não precisaria de um debate neste início de campanha para atrair novos doadores.

Além disso, como Bush é o candidato favorito da cúpula republicana, será o alvo principal da ala direita do partido, que tentará enquadrá-lo como não suficientemente conservador e empurrá-lo à direita.

O desafio de Bush será evitar uma dura disputa verbal com Trump sobre imigração ou outras questões mais sensíveis e conduzir o debate a tópicos que lhe são mais favoráveis, como a economia.

“Se eu estivesse na equipe de Bush, eu faria com que ele teria várias respostas de 30 segundos preparadas, estabelecendo diferenças entre suas posições e as dos outros candidatos. Se alguém precisa estar preparado para isso, esse alguém é Bush.”