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Literatura

Sobre o escritor Victor Heringer

Ricardo Domeneck
13 de março de 2018

Ele dizia só sentir-se feliz quando escrevia. Ou quando viajava. As duas coisas deviam estar ligadas em sua cabeça bonita, cabeça de poeta, romancista, contista, ensaísta, artista visual.

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Foto: Colourbox

Ele era um rapaz teuto-carioca. Era assim que me referia a ele, às vezes, por brincadeira em nossas mensagens, referindo-me a sua ascendência e a minha residência. Como está o teutão? Em seu texto "O meu avô é o futuro”, ele escreveu: "Meu avô / se ainda fôssemos alemães, meu avô / teria feito dez anos de idade em 1945 / em Munique / sob intenso bombardeio. // Que bom que os antepassados pegaram aquele navio / que se chamava Argus. / Vieram parar aqui neste fim de mundo”. O nome de seu avô, um naturalista maluco tal como o próprio neto escreveu no texto, era Milton Heringer. O nome do meu amigo, seu neto, era Victor Heringer. Poeta, romancista, contista, ensaísta, artista visual. Ele morreu há uma semana no Rio de Janeiro.

Escrevi sobre seu trabalho pelo menos duas vezes por aqui. Discuti sua prosa em geral no artigo "Dedo de prosa sobre a prosa de Victor Heringer”, e também resenhei seu último romance, "O amor dos homens avulsos"(São Paulo: Companhia das Letras, 2016).

Foi em julho de 1823 que o Argus saiu do porto de Amsterdã com 284 passageiros. Só em janeiro de 1824 desembarcaram no Rio de Janeiro os 134 imigrantes dentre eles que se destinavam à colônia alemã de Nova Friburgo na serra carioca. Dizem que foi a Imperatriz Leopoldina, que era austríaca, quem encorajou que o governo brasileiro incentivasse a vinda de germânicos. Talvez se sentisse perdida nos trópicos, naquele "fim de mundo”. É duvidoso que tenha aproveitado da companhia daquela gente, sendo afinal a imperatriz e morrendo já em 1826. Mas das coxas dessa gente foi um dia sair meu amigo, Victor Heringer, carioca, tão carioca nos seus jeitos, mas não em tudo. Ele que dizia só sentir-se feliz quando escrevia. Ou quando viajava. As duas coisas deviam estar ligadas em sua cabeça bonita. Sobre runas ou deusas germânicas da fertilidade nunca ouvi nada de sua boca. Suas entidades eram pretos-velhos e pombas-giras, iniciado que era na Umbanda.

Não esperavam decerto os chamados bárbaros germânicos que tanto resistiram aos romanos, repelindo-os na batalha da Floresta de Teutoburgo no ano 9 d.C., que algum dia um descendente deles acabaria numa República tropical de língua oficial neolatina, contribuindo para sua beleza contemporânea com tanta elegância. Numa Rio de Janeiro que tem mais de umidade mediterrânea do que a fria das florestas negras ao norte. Mas não foi este clima mais ameno que aquela gente do Argus foi buscar na serra? Não tão longe, o filho caçula da Imperatriz Leopoldina viria a construir sua cidade, Petrópolis, onde está enterrado na bela Catedral de São Pedro de Alcântara.

Não é fácil escrever esse texto. É tudo tão recente. Ainda hoje, ao receber uma mensagem sobre uma bolsa para escritores do Instituto Camões em Berlim, pensei por um segundo em recomendá-la a ele. Foi um milésimo de segundo até vir a lembrança. O poema que escreveu pela morte de seu amigo Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade começa com o verso: "Daqui a vinte anos farei teu poema”. Demora. Tudo demora e tudo é tão rápido ao mesmo tempo.

Em 2014, Victor Heringer participou do Festival Zeitkunst, que ocorria tanto em Berlim quanto no Rio de Janeiro. Ele não chegou a vir à capital alemã. Mas creio que foi a primeira vez que um texto seu foi traduzido para a língua dos seus antepassados. Reproduzo abaixo o original e a tradução de Odile Kennel. Victor Heringer nasceu em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1988. Publicou o livro de poemas automatógrafo (2011), os romances Glória (2012) e  O amor dos homens avulsos (2016), assim como a plaquete O escritor Victor Heringer (2015) e o conto Lígia, além de inúmeros textos para a revista Pessoa e outros veículos. O amigo morreu no dia 7 de março de 2018 em sua cidade, o Rio de Janeiro.

"Dez mil bocas de batom borrado"

Victor Heringer

Dez mil bocas de batom borrado

Vinte mil olhos maquiados de fim de festa.

Doze mil línguas queimadas de cigarro.

Despejaram você de casa (o Centro ficou muito caro).

O assessor de imprensa fugiu com as moedas.

Você teve que se acostumar ao silêncio

ou a cantar Katie Cruel nos bordéis da fronteira.

Quarenta e dois mil homens numa tarde.

Os tabloides ignoram teus amores d'esquina,

os falsários te admiram as nádegas, tuas asas ardem.

Você batuca um abridor de cartas nas garrafas vazias,

que ressoam com um travo de verdade.

§

"Zehntausend Münder mit verschmiertem Lippenstift”

Zehntausend Münder mit verschmiertem Lippenstift

Zwanzigtausend Augen auf Party-Ende geschminkt.

Zwölftausend Zungen von Zigaretten verbrannt.

Sie haben dich zuhause rausgeworfen (das Zentrum längst unbezahlbar).

Der Verwalter ist mit dem Kleingeld abgehauen.

Du musstest dich an die Stille gewöhnen

oder Katie Cruel singen in den Grenzbordellen.

Zweiundvierzigtausend Männer an einem Abend.

Die Boulevardblätter wissen von deinen Straßeneckenlieben nichts

die Kanaille bewundert deinen Hintern, deine Flügel fangen Feuer.

Du schlägst mit einem Brieföffner den Takt auf leeren Flaschen

in ihrem Klang schwingt etwas von Wahrheit.

(Übersetzung: Odile Kennel)

Na coluna  Bibliothek, publicada às terças-feiras, o escritor Ricardo Domeneck discute a produção literária em língua alemã, fala sobre livros recentes e antigos, faz recomendações de leitura e, de vez em quando, algumas incursões à relação literária entre o alemão e o português. A coluna Bibliothek sucede o Blog Contra a Capa.

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