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Gerenciando consciências

Soraia Vilela21 de março de 2003

Atrás de tanques e bombas, esconde-se uma arma mais eficaz: a informação. Manipulando opiniões, a mídia encena a guerra como convém aos centros de poder, oferecendo ao mundo um verdadeiro espetáculo bélico-midiático.

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Passantes acompanham notícias sobre a guerra na estação ferroviária central de FrankfurtFoto: AP

Em Desequilíbrio do Horror, o filósofo francês Paul Virilio já havia analisado a primeira guerra do Golfo Pérsico sob a ótica da "desinformação" reinante. Sobre os conflitos armados no Kosovo, ocorridos alguns anos depois, Virilio viria a dizer: "é inquestionável o fato de que a telinha, agora, nos oferece tantas surpresas desagradáveis e tantos engodos óticos de ordem política". Hoje, frente a uma guerra ainda mais atrelada ao poder da tecnologia e conduzida com o aval indiscutível da mídia norte-americana, Virilio certamente teria ainda mais a dizer.

Armas decisivas -

Já durante a guerra do Kosovo, o comandante das tropas da OTAN, General Clark, havia dito que "as imagens e as palavras" seriam "as armas decisivas". Encenada como um espetáculo, a atual guerra do Iraque foi anunciada com antecedência, ignorando a opinião de qualquer espécie de espectador, fosse ele a ONU ou parte da própria população norte-americana.

A mídia, aí, cumpre seu papel não só de coadjuvante no processo, mas assume a função de protagonista, tornando-se através de seu poder de condução da opinião pública um dos mais importantes instrumentos estratégicos de um conflito militar. Desde os primórdios da reportagem de guerra, nos idos do século 16, as notícias enviadas ao público distante já iam além da mera reprodução dos fatos. Hoje, a mídia é capaz de outorgar ou tirar o "caráter legítimo" de um conflito frente a milhares de pessoas, fazendo o jogo do poder como lhe convém.

Lustrosos e bem articulados -

No contexto atual, não são poucos os gritos roucos vindos dos EUA, como observa a escritora norte-americana Francine Prose, na edição desta quinta-feira (20) do semanário alemão Die Zeit: "...os comentaristas e correspondentes, esses terroristas lustrosos e bem articulados, com suas vozes melosas e seus ternos bem cortados. Parece que eles só têm interesse em que tenhamos medo, para nos tornarmos obedientes e submissos, ao invés de nos oferecer análises e nos esclarecer quem e o que nós, na verdade, deveríamos temer".

Comitê contra a manipulação -

Não muito diferente dali, do outro lado do Atlântico, na Espanha, mais de cem funcionários da rede de televisão estatal TVE publicaram, há pouco, um manifesto contra a direção da casa, no qual rejeitam a posição de cúmplices de um tipo de jornalismo "que fere nossa dignidade profissional". Logo após o manifesto, foi fundado nos bastidores da emissora um "comitê contra a manipulação".

O ponto de discórdia entre direção e funcionários é a insistência da TVE em omitir a discrepância entre a posição pró-guerra do premiê José Maria Aznar e a clara tendência antibélica da população. Em relação aos protestos ocorridos há pouco no país, a presença de centenas de pessoas nas ruas foi atribuída pelo canal de TV a uma abstrata "luta pela paz" e dissociada de qualquer rejeição à posição oficial do governo. "A ocultação da verdade atingiu proporções inimagináveis", observou o historiador Javier Tussel no diário El País.

"Embedding" -

Como que para esconder a guerra real da desinformação, os centros de poder apelam para estratégias cada vez mais sofisticadas. Querendo provar o contrário, o Pentágono optou, desta vez, pelo que chama de "embutir" a mídia nos bastidores da guerra (embedding). Jornalistas norte-americanos e estrangeiros entram em combate, ao lado das unidades militares, sejam elas navios de guerra, tanques, aviões caça ou postos militares.

Impossibilitados de manter qualquer distância do objeto sobre o qual escrevem, esses jornalistas embutidos (o melhor seria abatidos?) estão então aptos a servir de correspondentes de guerra. Até mesmo Walter Isaacson, presidente da CNN, citado pelo diário suíço Neue Zürcher Zeitung, manifestou o temor de que "os jornalistas embutidos corram o risco de querer manter uma relação amistosa com a unidade onde estão, mesmo que seja apenas para assegurar o acesso a futuras informações".

Cerceados pelo peso emocional de não poderem atacar os "companheiros" ao lado e completamente dependentes das unidades militares no que diz respeito a alojamento, alimentação e locomoção, esses jornalistas-reféns servirão, melhor do que ninguém, às estratégias de quem lhes abriga. Segundo David Andersen, do Centro de Mídia da base militar americana no Kuweit, em entrevista ao Washington Post, a idéia é "fazer com que os jornalistas se tornem parte da unidade, transformando-os em membros da equipe".

Espetáculo -

Quaisquer que sejam os resultados concretos de uma guerra como essa, ela já começa com um vencedor: consultores e assessores de relações públicas, responsáveis pelos ataques e contra-ataques de palavras e imagens, opiniões torcidas e distorcidas e o gerenciamento de consciências que isso acarreta.

Paul Virilio já havia previsto após a Guerra do Golfo de 1991: "trata-se de uma guerra, que através da organização total dos sistemas de armas high tech, pôde tornar-se um espetáculo midiático, fazendo esquecer que aqui tenha sido talvez testada a guerra do futuro". Agora, parece que chegamos a ela, à guerra do futuro.