"Gritaria dos golpistas não vai me tirar do rumo", afirma Dilma

Em meio a protestos populares, presidente empossa Lula na Casa Civil e parte para o ataque, criticando a divulgação de escutas telefônicas. Pouco depois, juiz suspende nomeação.

A presidente Dilma Rousseff empossou nesta quinta-feira (17/03) o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na chefia da Casa Civil. A cerimônia, realizada no Palácio do Planalto, teve momentos tensos e foi acompanhada de gritos de apoio ao governo, vindos dos convidados.

Também foram empossados Jaques Wagner, como ministro-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência da República, e Eugênio José Guilherme de Aragão, como ministro da Justiça.

Pouco depois, a Justiça Federal de Brasília determinou a suspensão do ato de nomeação de Lula. A decisão é do juiz Itagiba Catta Preta Neto, que entendeu que há indícios de crime de responsabilidade. A transmissão de cargos entre os ministros perde efeito até que uma nova ordem judicial seja decidida. A decisão foi decidida por "risco ao exercício do Judiciário" e tem aplicação imediata.

Se houver recurso, o mérito vai ser decidido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. A Advocacia-Geral da União (AGU) já anunciou que vai recorrer da decisão.

Ovação e tumulto

Ao vivo agora
01:01 min
Brasil | 17.03.2016

Novos protestos contra o governo

Quando Lula e Dilma chegaram ao Salão Nobre no Palácio do Planalto foram ovacionados pelos convidados, em sua maioria representantes de movimentos sociais e sindicalistas. Eles gritaram "Lula lá" e "não vai ter golpe".

Pouco antes de a presidente iniciar sua fala, um deputado da oposição presente na plateia foi expulso do lugar, após gritar "vergonha" e dar início a um tumulto. Outros convidados responderam gritando "não vai ter golpe".

Em discurso contundente, Dilma atacou a oposição e garantiu que segue firme no seu rumo. "A gritaria dos golpistas não vai me tirar do rumo e não vai colocar nosso povo de joelhos", disse.

Ela acrescentou que Lula, além de ser um grande líder político, é um grande amigo e companheiro de lutas. "Seja bem-vindo, querido companheiro ministro Lula. Eu conto com a experiência do ex-presidente Lula, conto com a identidade que ele tem com esse país e com o povo desse país. Conto com sua incomparável capacidade de olhar nos olhos do nosso povo, de entender esse povo. A sua presença aqui, companheiro Lula, mostra que você tem a grandeza dos estadistas. Prova que não há obstáculos à nossa disposição de trabalharmos juntos pelo Brasil."

Os convidados interromperam o discurso de Dilma com palavras de ordem e gritos de "Lula”, "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo" e "A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura".

Ataques a Moro

Em sua fala, a presidente também reclamou da divulgação dos grampos telefônicos contendo diálogos dela com Lula, que acusou de ilegais. "Não há justiça quando leis são desrespeitadas e a Constituição, aviltada, quando as garantias constitucionais da própria Presidência da República são violadas", afirmou.

Ela frisou que o governo está avaliando "com precisão as condições deste grampo que envolvem a presidente da República" e que ela quer saber "quem o autorizou, porque o autorizou e porque ele foi divulgado quando não havia nada que pudesse colocar sob suspeita o seu caráter republicano".

"Investigações baseadas em grampos ilegais não favorecem a democracia neste pais. O Brasil não pode se tornar submisso a uma conjuração que invada as prerrogativas constitucionais da Presidência da República", ressaltou.

Cerca de 300 manifestantes a favor de Dilma e Lula se concentraram em frente ao Palácio do Planalto, que teve segurança reforçada por soldados da Polícia Militar e da Polícia do Exército.

Lula decidiu ir à cerimônia mesmo após a divulgação de grampos telefônicos de suas conversas. Um diálogo dele com Dilma mostra que ela entregou ao líder petista um termo de posse para ser usado "em caso de necessidade".

O conteúdo da conversa foi interpretado por investigadores como uma possível tentativa de evitar que Lula fosse preso. As gravações foram divulgadas por autorização do juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba.

A nomeação do petista, alvo de investigação da Operação Lava Jato, motivou uma série de manifestações, que cresceram na noite desta quarta-feira, após a divulgação do conteúdo das interceptações telefônicas, com diálogos entre Lula e diversos interlocutores, incluindo Dilma.

Protestos acontecem em Brasília e em São Paulo desde o início da manhã desta quinta-feira. A Avenida Paulista amanheceu bloqueada por manifestantes. Foram registrados panelaços em diversos bairros da capital paulista. Centenas de manifestantes se reuniram em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília.

A trajetória política de Lula

Lula e as greves do ABC

Em 1975, Lula foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e ganhou projeção nacional ao liderar uma série de greves no final da década. Em 1980, foi preso e processado com base na Lei de Segurança Nacional após comandar uma paralisação que durou 41 dias. Lula ficou 31 dias no cárcere do Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social).

A trajetória política de Lula

Fundação do PT

Em 10 de fevereiro de 1980, pouco antes de ser preso, Lula ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) com apoio de intelectuais e sindicalistas. Em maio do mesmo ano, ao sair do cárcere, foi eleito o primeiro presidente do partido. O pernambucano, então, ingressaria de vez na política: em 1982, concorreu ao governo de São Paulo e, em 1986, foi eleito deputado constituinte.

A trajetória política de Lula

A campanha de 1989

O PT lançou a candidatura de Lula nas primeiras eleições presidenciais diretas após o fim do regime militar. Com uma imagem de operário e um discurso de esquerda, Lula provocou temor em vários setores da economia, que se alinharam ao candidato Fernando Collor. O petista foi derrotado no segundo turno, depois de uma campanha que envolveu acusações de manipulação da imprensa em favor de Collor.

A trajetória política de Lula

A campanha de 1994

No embalo das primeiras denúncias de irregularidades no governo Collor, Lula lançou, em 1991, o movimento "Fora Collor" em apoio ao impeachment. Em 1994, concorreu novamente à presidência, com Aloizio Mercadante como vice, mas foi derrotado no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), lançado como "pai do Plano Real". PT, por outro lado, elegia seus primeiros governadores (DF e ES).

A trajetória política de Lula

A campanha de 1998

Em 1998, Lula sofreu uma das suas piores derrotas eleitorais. À época, o petista teve como candidato a vice o ex-governador Leonel Brizola (PDT), um dos seus rivais na eleição de 1989 e com quem disputava a hegemonia na esquerda brasileira. A fórmula não deu certo. Lula obteve só 31% dos votos e não chegou ao segundo turno. O então presidente Fernando Henrique Cardoso foi reeleito com 53%.

A trajetória política de Lula

A posse de Lula

O eterno candidato do PT finalmente assumiu a Presidência em janeiro de 2003, após oito anos de governo do PSDB. Lula foi eleito com 61% dos votos válidos no segundo turno. A vitória foi alcançada após uma intensa campanha, que vendeu uma imagem mais moderada do petista – simbolizada no slogan "Lulinha paz e amor" – com o objetivo de acalmar os mercados e ampliar o eleitorado do partido.

A trajetória política de Lula

Economia em alta

Após as turbulências no final do governo Fernando Henrique Cardoso, a economia brasileira voltou a crescer com Lula, embalada sobretudo pelo boom das commodities. Foi o período da descoberta do Pré-Sal e investimentos em grandes obras de infraestrutura. O crescimento médio do PIB no segundo mandato chegou a 4,6%. O bom momento catapultou a popularidade de Lula, que chegou a 87% no final de 2010.

A trajetória política de Lula

Queda na desigualdade

Os programas sociais lançados por Lula, como Minha Casa, Minha Vida e ProUni, também contribuíram para a popularidade do presidente. O Bolsa Família, criado em 2004 a partir da unificação de outros programas de transferência de renda, se tornaria o carro-chefe. Quase 28 milhões de brasileiros saíram da zona de pobreza nos oito anos do governo Lula, afirmou um balanço em 2010.

A trajetória política de Lula

O escândalo do mensalão

Em 2005, o governo Lula foi atingido em cheio pelo escândalo de compra de votos de deputados, o mensalão. Apesar do desgaste, Lula sobreviveu à crise. Outros, como o ministro José Dirceu, uma das figuras fortes do governo, caíram em desgraça. No início, Lula afirmou que assessores o haviam "apunhalado", mas depois mudou o discurso e disse que o caso era uma invenção da oposição e da imprensa.

A trajetória política de Lula

A eleição de Dilma

Em 2007, logo após ser reeleito com mais de 60% dos votos, Lula começou a preparar o terreno para a sua sucessão. Como sucessora, ele escolheu a sua então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, uma tecnocrata sem experiência nas urnas. Nos três anos seguintes, Lula promoveu a imagem de Dilma junto aos brasileiros. A estratégia funcionou, e ela foi eleita em 2010.

A trajetória política de Lula

Luta contra o câncer

Em outubro de 2011, Lula foi diagnosticado com câncer na laringe, sendo submetido a um agressivo tratamento – pela primeira vez desde 1979, ele aparecia sem a barba. Exames apontaram a remissão completa do tumor cerca de cinco meses depois, e Lula voltou a se engajar nas campanhas do PT. Uma das grandes vitórias eleitorais de 2012 foi a de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo.

A trajetória política de Lula

Lula e a Lava Jato

Em março de 2016, Lula foi alvo de um mandado de condução coercitiva pela Operação Lava Jato, que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras. O ex-presidente foi levado para depor sobre um sítio em Atibaia, um triplex no Guarujá e sua relação com empreiteiras investigadas na Lava Jato. No mesmo dia, a PF cumpriu mandados em residências do petista e de sua família, além do Instituto Lula.

A trajetória política de Lula

Réu em diferentes processos

Nos meses seguintes, Lula foi denunciado por uma série de crimes, como corrupção passiva, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça e tráfico de influência, tornando-se réu em cinco processos diferentes, inclusive na Lava Jato. O petista sempre desmentiu as acusações, negou a prática de crimes e disse ser vítima de perseguição política. Ele também nega ser proprietário dos imóveis investigados.

A trajetória política de Lula

Depoimento a Moro

Em maio de 2017, o ex-presidente se apresentou pela primeira vez como réu perante o juiz Sergio Moro. Em depoimento prestado em Curitiba, Lula voltou a negar as acusações e alegou estar sendo perseguido politicamente. Ele ainda exigiu a apresentação de provas de que seja dono dos imóveis em Guarujá e Atibaia. O interrogatório foi o último passo antes da sentença dentro da Operação Lava Jato.

A trajetória política de Lula

Lula é condenado

Réu em outros processos, Lula foi condenado pela primeira vez em 12 de julho de 2017. A sentença do juiz Sergio Moro determinou 9 anos e 6 meses de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. O TRF-4 confirmou a condenação em segunda instância, além de aumentar a pena para 12 anos e um mês de prisão. É a primeira vez que um ex-presidente é condenado por corrupção no Brasil.

A trajetória política de Lula

Derrota no STF

Por 6 votos a 5, os ministros do Supremo Tribunal Federal negaram um pedido de habeas corpus preventivo apresentado pela defesa de Lula para evitar uma eventual prisão após o fim dos recursos na segunda instância da Justiça Federal. Manifestantes contrários e a favor de Lula foram às ruas por ocasião do julgamento.

Siga-nos