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"No future kids" nas metrópoles alemãs

(sv)18 de agosto de 2004

Prognósticos de pesquisador sobre futuro das grandes cidades alemãs não são nada alentadores: formação de guetos, com hordas de imigrantes jovens desempregados e marginalizados, cuja única saída é a delinqüência.

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Imigrantes: falta de perspectiva e pouca integraçãoFoto: AP

O cenário pintado pelo pesquisador de origem síria Bassam Tibi ao diário Financial Times Deutschland é estarrecedor. Segundo Tibi, que é professor de Política Internacional na Universidade de Göttingen, as grandes cidades alemãs serão palco, no ano de 2014, de constantes batalhas entre grupos de jovens descendentes de imigrantes muçulmanos e a polícia. O que só poderá ser evitado se o Estado alemão investir mais na integração de estrangeiros.

Falta integração

Deutsche und Türken in Kreuzberg
Imigrantes turcos em Kreuzberg, bairro berlinenseFoto: Bilderbox

"Os muçulmanos não são propensos à integração e os alemães não têm disposição a integrar os outros", sentencia Tibi. Se por um lado a tendência de formação de guetos vem se tornando cada vez mais acentuada, falta aos alemães a capacidade de proporcionar aos estrangeiros que vivem no país a sensação de serem parte do coletivo, ou seja, de estarem "em casa", analisa o pesquisador.

O problema não estaria apenas na falta de conhecimento da língua. "Conheço turcos que nasceram na Alemanha e falam melhor o alemão que o idioma turco, mas mesmo assim não se sentem alemães", diz Tibi. Pouco aceitos, marginalizados e muitas vezes isentos de qualificação para o mercado de trabalho, esses jovens de amanhã podem estar a caminho de um processo de formação de guetos cada vez mais intenso.

No entanto, como observa o diário Neue Zürcher Zeitung, "não se deve cometer o erro de classificar todas as pessoas que vivem na Europa e vêm de culturas islâmicas como um grupo homogêneo e indiferenciado. Entre um trabalhador turco no Vale do Ruhr, que não fala alemão e se locomove apenas no universo do país de onde vem, e um intelectual marroquino vivendo em Paris, que mescla ingredientes das culturas árabe e francesa, as quais domina plenamente, e as combina numa mistura original, há muito poucas semelhanças. Embora ambos sejam muçulmanos europeus".

Fadados a escolas para deficientes

Deutsch-Vorlaufkurs für ausländische Kinder
Curso de alemão para crianças estrangeirasFoto: dpa

Nas chamadas escolas especiais (Sonderschule), destinadas a alunos com deficiência de aprendizado na Alemanha, a percentagem de filhos de imigrantes é altíssima. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Max Planck, em Berlim, detectou que muitas vezes são apenas as dificuldades com o idioma que levam à transferência dessas crianças às escolas para deficientes. O que acaba fechando um círculo vicioso, pois este é o tipo de escola dentro do sistema educacional alemão que oferece o nível mais baixo de reforço no aprendizado da língua.

Essa tendência em transferir descendentes de imigrantes para escolas de deficientes é tido como um comportamento típico alemão. Em outros países europeus, noticia o canal de televisão 3Sat, procura-se manter essas crianças e adolescentes nas escolas "normais", exatamente para facilitar a integração das mesmas na sociedade como um todo.

Conflitos violentos nos moldes parisienses

Segundo os prognósticos do pequisador Tibi, os muçulmanos vão formar, no futuro, um contingente de 80% dos imigrantes vivendo na Alemanha. O dobro dos 40% atuais. Considerando que o Estado alemão tende a reduzir e até mesmo a suprir uma série de benefícios sociais, é bem provável que essas crianças imigrantes de hoje não tenham um futuro muito promissor. "Não será possível segurar mais esses no future kids. Conflitos violentos estão por vir", profetiza Tibi, comparando a situação ao que já ocorre hoje na banlieue de Paris.

As crianças sem futuro, que um dia se tornarão jovens e adolescentes "sem presente", vão, segundo as profecias do pesquisador, "se vingar da sociedade alemã". Comparada à integração dos imigrantes italianos, gregos, poloneses ou portugueses, que chegaram à Alemanha até a década de 70, a situação enfrentada pelos turcos hoje no país é mais complexa, pois a Alemanha viveu há 30 anos um boom econômico e hoje se debate aqui e ali para apertar os cintos.

Até os anos 70, quando não havia desemprego no país, a integração dos imigrantes se dava através do trabalho – na fábrica e nos sindicatos. Uma identidade italiana, polonesa ou qualquer outra era sobreposta pela consciência trabalhista. E quando havia uma ascensão social, esta identidade trabalhista era substituída pela pequeno-burguesa britânica, alemã, francesa, etc. Ou seja, aquela do país onde essas pessoas estavam vivendo", analisa o Neue Zürcher Zeitung.

Hoje, com altos índices de desemprego, os jovens pouco qualificados têm pouca ou nenhuma chance de integração na sociedade através do mundo do trabalho. Vivendo de ocupações sazonais – um bico aqui, outro ali – falta a eles perspectiva de futuro.