O humor indestrutível dos brasileiros

Ao contrário dos alemães, que complicam a vida e mergulham na angústia, brasileiros encontram no humor uma maneira de suportar realidades muitas vezes insuportáveis.

Escrevi nesta coluna alguns textos muito críticos sobre a situação do Brasil. A maioria dos leitores concordava com a condenação. Mesmo assim, também sentia o desconforto com o fato de um julgamento tão severo sobre o país vir logo de um estrangeiro. E, com cada vez mais frequência, ouço a pergunta: não tem nada que você goste no Brasil, por que você vive aqui?

Por isso, hoje quero falar sobre uma das características mais adoráveis dos brasileiros: o humor indestrutível. Além da incrível musicalidade, ele é o que eu mais admiro. Tenho a impressão de que os brasileiros – se é que posso generalizar assim – têm uma grande facilidade de rir. De certa maneira, eles são a imagem antagônica ao clichê do alemão sério.

Foi justamente durante o jogo do Brasil contra a Bélgica na Copa do Mundo que tive a ideia de escrever sobre isso. Ao meu lado, estavam sentadas duas senhoras que deviam ter uns 65 anos. Elas comentavam a partida de forma vivaz e, a cada ataque dos belgas, pediam aos risos que os "gigantes vermelhos" fossem derrubados. Quando o jogo acabou e o Brasil foi eliminado, uma das duas falou: "Agora vamos buscar o hexa no Catar. Nosso time vai amadurecer e ficar ainda melhor". A outra respondeu: "Igual à gente". As duas deram risada.

Testemunhei o mesmo tipo de descontração na rua. Não se ouviam xingamentos agressivos como na Alemanha, depois da eliminação. Em vez disso, as pessoas estavam preocupadas em mostrar os primeiros memes que iam aparecendo nas mensagens de celular, a exemplo da bandeira alemã redesenhada como bandeira belga: "A inimiga não foi embora. Ela está disfarçada".

A velocidade com que se inventam piadas no Brasil sempre volta a me deixar pasmado. É algo que já tinha chamado minha atenção durante o 7 a 1. No intervalo, as pessoas já diziam que nem a Volkswagen conseguia fazer cinco gols em 45 minutos.

Se o Brasil passa por uma crise – e, nos últimos anos, elas foram abundantes – pode-se ter certeza de que alguém vai começar a tirar um sarro da situação. E o humor, que frequentemente consiste no exagero e no cruzamento de coisas que não têm nada a ver umas com as outras, é o que mais se aproxima da descrição de uma realidade que costuma ser absurda. Ele torna o insuportável mais suportável.

Foi assim durante os protestos de 2013 ("Odeio bala de borracha, joga um Halls"). E voltou a acontecer no último fim de semana, durante o cabo de guerra jurídico envolvendo a soltura de Lula ("Justiça brasileira recorre ao árbitro de vídeo para julgar o caso Lula"). Especialmente em momentos de crise e de dor, as fábricas de memes brasileiras trabalham a todo vapor. O humor nasce da necessidade.

Philipp Lichterbeck

Essa criatividade espontânea também existe no âmbito pessoal. Recentemente, por exemplo, ouvi um homem conversando ao telefone na rua. Ele estava brigando com a outra pessoa, até que falou: "Você plantou pimenta. Não vai colher morango, não."

Do mesmo jeito o Neymar que caía demais nos jogos da Seleção já virou verbo na fala popular. Num bar eu ouvi um homem falar: "Vou beber até Neymar". E o nome do ministro Gilmar Mendes, na linguagem popular, agora é sinónimo de "soltar". Ele virou o "Soltador-Geral da República".

Como alemão, é claro que admiro o jeito criativo com que os brasileiros lidam com situações difíceis. É que, enquanto as pessoas na Alemanha tendem a problematizar muitas coisas e mergulhar na angústia, os brasileiros, muitas vezes, riem da própria condição. Eles conseguem – bem diferente dos alemães – rir de si mesmos e da situação do país.

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Naturalmente, isso tem relação com o fato de que não parece ter alternativa. Como viver num país no qual os ricos são os ladrões, e os pobres, os roubados? Como brasileiro, é preciso olhar para frente com esperança porque o presente não costuma ser motivo de alegria. Da tragédia de viver num país que sempre fica abaixo das próprias expectativas nasce a comédia. O riso como libertação.

Com frequência, a origem do riso brasileiro é datada nos tempos da escravidão. Os escravos eram obrigados a se apresentarem bem-humorados na Casa Grande. Depois, rir sobre a tristeza continuou no samba. Já é possível encontrar essa atitude em Pelo Telefone, o primeiro samba, que já tem 102 anos. O peru me disse/Se o morcego visse/Não fazer tolice/Que eu então saísse/Dessa esquisitice/De disse-não-disse.

E, também na literatura, há exemplos suficientes. Estou lendo o maravilhoso épico Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Além da fantasia sem fronteiras do autor, admiro seu tom subjacente levemente irônico. Paradoxalmente, o livro trata do violento surgimento do Brasil.

Porém, mesmo com todos os elogios à leveza brasileira, é preciso dizer que nem todo humorista autodenominado é engraçado. Quem faz gozação sobre os mais fracos, ou brinca com o ressentimento em relação a minorias, não tem humor no coração, mas ódio. Figuras como Danilo Gentile não entenderam a natureza do humor, que, desde seu surgimento, sempre serviu para que aqueles que não tinham poder rissem dos poderosos.

E, portanto, não é à toa que o presidente brasileiro seja um objeto tão apreciado de zombaria e escárnio. Parece ser um esporte nacional fazer piada dele. "Michel: Marcela, onde vamos jantar? – Marcela: Fora, Temer!"

Com seu humor espontâneo, os brasileiros são para a América Latina o que os ingleses são para a Europa com seu humor negro. Eles me lembram um pouco o Cristo no filme A vida de Brian, da trupe satírica Monty Python. Crucificado, ele canta: "Sempre enxergue o lado bom da vida."

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

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O que é típico brasileiro?

O atraso faz parte do dia a dia

Ao marcar um encontro com um brasileiro, pode-se ter quase certeza de que ele vai se atrasar pelo menos alguns minutos, se não mais de uma hora. Isso é normal, e raramente alguém fica aborrecido. E, quando sabe que o outro não será pontual, você também se acostuma a chegar tarde: o atraso já é levado em conta. Resta a pergunta: Não seria mais fácil todo mundo aparecer no horário combinado?

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O famoso "jeitinho brasileiro"

O termo "jeitinho brasileiro" se refere à forma criativa de resolver problemas e superar obstáculos. Quando você pensa que já tentou de tudo, vem o brasileiro e acaba achando uma solução – por mais inconvencional que ela seja! Pena que, como tudo na vida, o jeitinho não é só usado para coisas boas.

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Cerveja, só geladíssima

Para um brasileiro, a cerveja tem que estar "estupidamente gelada". E, enquanto em muitos outros países, cada um compra a sua garrafinha de 330 ml ou 500 ml, no Brasil as pessoas pedem uma garrafa grande e dividem a cerveja em copos. E, para admiração do turista, a garrafa é colocada num porta-cerveja para não esquentar. Algo impensável na Alemanha!

O que é típico brasileiro?

Sem arroz e feijão não dá!

A paixão por arroz e feijão de quase todo brasileiro é um fenômeno engraçado. Muitos comem isso todo dia e, e mesmo quando há outras opções na mesa, se servem de arroz e feijão. O estrangeiro pensa: "Deve ser um instinto de sobrevivência!" Quando o brasileiro tem que passar um tempo sem o amado arroz e feijão, parece até que foi privado de uma necessidade básica.

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Todo brasileiro sabe sambar

Na música brasileira há uma grande variedade de estilos: forró, sertanejo, axé... Mas, no exterior, o Brasil é famoso principalmente pelo samba. Pensa-se que todo brasileiro samba em todas as ocasiões festivas. Seja isso verdade ou não, o fato é que o samba é um dos maiores símbolos brasileiros e até virou produto de exportação. Há centenas de escolas de samba no Japão e na Europa. 

O que é típico brasileiro?

O país do Carnaval

Quando se pensa no Brasil, para muitos a primeira coisa que vem à cabeça é o Carnaval. Pela televisão, a cada ano, espectadores do mundo inteiro admiram as imagens do Sambódromo com os dançarinos e suas fantasias espetaculares. Sem dúvida, o Carnaval é a maior festa popular do Brasil. Porém, de acordo com vários estudos, mais da metade dos brasileiros afirma não gostar muito de cair na folia.

O que é típico brasileiro?

Paciência e otimismo

É incrível a paciência e o otimismo que o brasileiro tem em relação ao futuro ou quando algo não funciona. Em vez de criar cenários sombrios, ele confia que "vai dar tudo certo" e espera até as coisas se ajeitarem. Um estudo do Instituto Gallup World Poll realizado em 138 países apontou que os brasileiros são o povo mais otimista do mundo.

O que é típico brasileiro?

Comunicativos e alegres

Os brasileiros realmente sabem como aproveitar a vida: gostam de bater um papo, se reunir, fazer churrasco... É o jeito sociável e extrovertido deles que faz turistas e imigrantes amar o país. Mesmo que muitos brasileiros sejam assim, é claro que há exceções: pois ser comunicativo e alegre não é só uma questão da cultura, mas também de cada personalidade.

O que é típico brasileiro?

Educados até demais

O brasileiro é educado e não muito direto. Muitas vezes, prefere ficar calado para evitar irritação e embaraço. Ele não gosta de enfrentar situações desagradáveis e, por isso, às vezes se torna um desafio obter um claro "sim" ou "não" dele. Bom, ser educado não é ruim, mas, se for demais, atrapalha!

O que é típico brasileiro?

Viciados em redes sociais

WhatsApp, Facebook, Snapchat. Quem tiver, por exemplo, amigos brasileiros e amigos alemães nas redes sociais, provavelmente vai notar uma diferença no comportamento online. Enquanto o alemão evita mostrar muito da vida privada na internet, o brasileiro é bastante ativo. Um estudo de 2012 apontou que os brasileiros são o povo mais viciado em Facebook.

O que é típico brasileiro?

Brasileiro é machista

Numa festa, uma mulher pode estar certa de que alguém vai flertar com ela se não tiver um namorado ao lado. Até certo ponto, tudo bem, mas em geral ele não se conforma com uma rejeição, ficando chato e insistente. Em situações assim, fica evidente que no Brasil há uma cultura de dominação masculina. Embora nos últimos anos já tenha mudado muito, o machismo ainda está impregnado na sociedade.

O que é típico brasileiro?

Democracia racial?

Seja descendente de italiano, alemão, japonês ou africano, no Brasil, todos vivem juntos e se sentem brasileiros em primeiro lugar. Em países europeus, onde a integração de imigrantes é difícil, isso parece um milagre. Só que, além da aparência, há sim desigualdade no Brasil. Estudos mostram que negros são discriminados. E a maioria dos pobres no Brasil são negros; e a maioria dos ricos, brancos.

O que é típico brasileiro?

Quem é a mais bela de todas?

Unhas perfeitas, visitas semanais ao salão de beleza, horas em frente ao espelho. A mulher brasileira adora cuidar do próprio corpo e se arrumar. Segundo um estudo internacional da empresa de cosméticos Avon, ela se importa mais com a aparência do que qualquer outra mulher no mundo.

O que é típico brasileiro?

Orgulho e vergonha ao mesmo tempo

A atitude do brasileiro em relação à própria nacionalidade é um pouco paradoxal: por um lado, ele adora o país, tem orgulho da cultura, da natureza, de tudo. Por outro lado, nota-se certo "complexo de vira-lata". É uma expressão criada pelo escritor Nelson Rodrigues, que significa que o brasileiro se acha inferior em comparação com outras nacionalidades e não tem muita fé no próprio país.

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