O que pode minar o caminho alemão para o penta?

Alemanha inicia Copa com transtornos internos, dúvidas táticas e após desempenhos decepcionantes nos últimos testes. Cotada como uma das favoritas, precisa acertar alguns pontos para não decepcionar na Rússia.

A Alemanha faz parte do seleto grupo dos grandes favoritos na Copa do Mundo de 2018: é a atual campeã mundial, encabeça o ranking da Fifa, fez uma Eliminatória impecável e sagrou-se campeã com uma equipe alternativa da Copa das Confederações.

Boa parte dos especialistas e jornalistas esportivos mundo afora aposta numa Nationalelf forte, com grandes chances de conquistar o pentacampeonato mundial – nas bolsas de apostas, a seleção alemã está atrás somente da brasileira.

No entanto, mesmo considerada uma das favoritas ao título, com um elenco recheado de jogadores de qualidade e jovens promessas, a Alemanha inicia sua 19ª participação em Copas com diversos problemas e num certo clima de desconfiança.

A autoconfiança da equipe e o ambiente descontraído de Campo Bahia, quartel-general da Nationalelf no Mundial do Brasil, certamente não se repetiu em Tirol do Sul, na Itália. Muito pelo contrário: o treinador Joachim Löw trouxe muitos problemas à Rússia.

A preparação da seleção alemã foi turbulenta, cercada de especulações sobre as condições físicas de Manuel Neuer, Jérôme Boateng, Mats Hummels e Mesut Özil, debates sobre os desempenhos fracos nos últimos amistosos e a polêmica em torno de uma fotografia tirada com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Uma Copa do Mundo é vencida em detalhes: bom ambiente interno, apoio nacional e jogadores em boa forma física e técnica e em seus ápices de foco e motivação são fatores importantes. E, em parte, isso nem sempre está presente na preparação alemã. 

A polêmica foto com Erdogan

O ambiente interno está pesado. Uma fotografia tirada por Ilkay Gündogan e Özil, jogadores de ascendência turca, com o presidente da Turquia, causou indisposição na política. Os dois atletas chegaram a conversar com o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. Até a chanceler federal alemã, Angela Merkel, pronunciou-se sobre o tema. As reações foram de indignação nas redes sociais, com torcedores pedindo o corte dos dois jogadores e dizendo que se recusariam a torcer pela seleção na Copa.

Parte da opinião pública não perdoou a foto tirada com Erdogan e não poupou vaias ao meia Ilkay Gündogan

No último amistoso, contra a Arábia Saudita, Gündogan foi vaiado toda vez que tocava na bola. O meia do Manchester City ao menos atendeu a imprensa e chegou a se desculpar e justificou a fotografia, mas Özil tem fugido dos jornalistas. O assunto gerou desconforto na seleção. Reiteradamente questionado pelos jornalistas, Löw se mostrou irritado com as vaias. "Já deu o que tinha que dar", disse. "Um jogador da seleção alemã ser vaiado não ajuda em nada e não me agrada nem um pouco."

A imprensa alemã, porém, não largou o assunto. O ex-jogador da seleção alemã Steffen Effenberg criticou a decisão da Federação Alemã de Futebol (DFB) de manter os dois atletas entre os convocados. "Quando se defende certos valores, como a DFB repetidamente transmite, a única decisão que poderia ter sido tomada era a exclusão dos dois jogadores", disse.

Effenberg viveu na pele como é ser expulso da Nationalelf. Ele foi cortado na Copa do Mundo de 1994, depois de ter mostrado o dedo do meio a torcedores alemães insatisfeitos com o desempenho da equipe. Ele ficou quatro anos sem atuar pela Alemanha. "Na época, a DFB foi consequente e muito rápida na decisão", lembrou Effenberg.

Todo o imbróglio em torno da polêmica fotografia também atingiu os dois atletas. Özil tem evitado a imprensa e treinado sem ânimo, cabisbaixo. "Estou mais preocupado com os dois, menos com a equipe. O tema afetou Gündogan e Özil", disse o diretor esportivo da seleção, Oliver Bierhoff.

Além disso, houve um entrevero entre o lateral-direito Joshua Kimmich e o defensor Jonathan Tah – cortado da lista dos 23 convocados – num treinamento em Tirol do Sul e ambos quase saíram no tapa.

Marc-André ter Stegen pegou pênalti contra a Arábia Saudita, mas terá de ceder a posição a Manuel Neuer

Desconforto com volta de Neuer

O retorno ou não do goleiro e capitão Manuel Neuer também ocupou as manchetes recentes da imprensa alemã. E, segundo relatos, gerou desconforto em Marc-André ter Stegen. O goleiro fez uma temporada impecável pelo Barcelona, mas, no final, terá de abrir caminho para Neuer, cuja última partida pelo Bayern de Munique foi em setembro de 2017. Certamente, Neuer possui mais qualidades e experiência que Ter Stegen, mas o goleiro reserva teria se sentido menosprezado.

"Aceito a decisão. É uma situação decepcionante se você joga bem durante toda a temporada e alcançou o mais alto nível de desempenho", disse. "Quando for preciso, estarei pronto. Tentarei ser uma ajuda ao Neuer. A equipe sabe que vou apoiá-la em 200%."

Na Copa do Mundo de 2006, os goleiros Oliver Kahn e Jens Lehmann também tiveram suas rusgas. Mas, na decisão por pênaltis, nas quartas de final contra a Argentina, Kahn colocou as desavenças de lado e deu apoio moral e motivou o então goleiro do Arsenal. Um gesto que foi retomado pela imprensa alemã com a situação desconfortável de Ter Stegen.

Desempenho fraco nos amistosos

E o ambiente interno certamente é refletido na atuação em campo. Ao menos, esta é uma das explicações para os recentes desempenhos fracos nos amistosos. Contra a Áustria, a Alemanha chegou a ser dominada em diversas fases da partida, principalmente na segunda etapa, e perdeu de virada, por 2 a 1. A Nationalelf não perdia para os vizinhos austríacos há 32 anos (dez jogos).

E contra a Arábia Saudita, um último amistoso, em casa, contra um adversário notoriamente inferior e propício para embarcar para o Mundial cheio de moral, a seleção alemã foi decepcionante. O impulso de confiança, aquela simbiose de clima de Copa entre o povo e a seleção, não veio – apenas uma vitória magra por 2 a 1, que no fim quase se transformou num amargo empate.

Com exceção da Arábia Saudita, a Alemanha não venceu nenhum dos outros cinco amistosos. Além da Áustria, os outros quatro adversários foram de grande calibre: Inglaterra (0x0), França (2x2), Espanha (1x1) e o revés por 1 a 0 frente ao Brasil, em Berlim, que interrompeu uma sequência de 22 jogos sem derrotas – a segunda mais longa da história da Alemanha.

Em caso de Timo Werner sentir o peso da Copa e não funcionar, Löw poderá contar com Mario Gómez?

Fragilidades e dúvidas táticas

A imprensa alemã criticou a falta de vontade e competitividade da seleção alemã. E Löw não escondeu seu descontentamento. "Contra a Áustria, por exemplo, falhamos em muitos detalhes. Se cometermos pequenos erros, somos apenas uma equipe mediana que pode perder contra a Áustria", disse. "Se precisamos melhorar? Com certeza. Mas quando o torneio começar, estaremos lá."

Entre os problemas que Löw, 12 anos frente à seleção alemã e que vai ao seu sexto grande torneio, também estão questões táticas. Notoriamente, o lado esquerdo com Jonas Hector é o mais frágil – mesmo lado onde Marco Reus, que com frequência tem problemas físicos, deve começar como titular.

As fragilidades defensivas ficaram evidentes nos amistoso preparatórios. Como proteger a defesa, sem abrir mão da orientação ofensiva de Toni Kroos e Sami Khedira? Em 2014, o posicionamento de Kroos era mais ofensivo, ao lado de Özil e Thomas Müller. Bastian Schweinsteiger e Khedira (Christoph Kramer, na final), e até Philipp Lahm, eram os volantes.

As esperanças da Alemanha estão depositadas – além de apresentações inspiradas de Neuer, Müller, Kroos e Özil – num jovem Timo Werner. Com apenas 14 jogos pela Nationalelf, o atacante de 22 anos do RB Leipzig já balançou a rede oito vezes. Foi campeão da Copa das Confederações, mas a Copa do Mundo é sua primeira prova de fogo. Werner ainda é um atacante sem grife, tido como um grande talento, mas que ainda precisa se provar. E se Werner não funcionar? O torcedor alemão terá de aguentar Mario Gómez...  

Müller, por outro lado, é com dez gols o melhor marcador disparado nesta Copa – seguido por James Rodríguez (6), Lionel Messi (5), Gonzalo Higuain (5), Luis Suárez (5), Tim Cahill (5), Neymar (4), Cristiano Ronaldo (6) e Xherdan Shaqiri (3).   

Na primeira fase, a Alemanha estreia contra o México, em 17 de junho, no estádio Luzhniki – o mesmo em que será disputada a grande final. Na sequência, joga contra a Suécia, em 23 de junho, em Sochi, e encerra a fase de grupos contra a Coreia do Sul, em 27 de junho, em Kazan.

Foto oficial da seleção alemã que vai em busca do pentacampeonato mundial, na Copa do Mundo da Rússia

Retrospecto contra os três adversários:

México: invicto em jogos oficiais – 11 jogos, com cinco vitórias, cinco empates e uma derrota.
Em Copas: duas vitórias e um empate. 

As últimas duas partidas contra o adversário da estreia ocorreram na Copa das Confederações. Em 2017, na Rússia, uma seleção alemã sem suas estrelas venceu por 4 a 1, com dois gols de Leon Goretzka e um de Timo Werner e de Amin Younes. Em 2005, em Leipzig, os alemães venceram na prorrogação por 4 a 3, graças a um gol de Michael Ballack – nas estatísticas, este jogo entra como empate. 

Em Mundiais, foram três partidas: 6 a 0, em 1978, na Argentina; 0 a 0, em 1986, no México, e 2 a 1, nas oitavas de final de 1998, na França, com gol do atual diretor esportivo Oliver Bierhoff. O único sucesso do México veio num amistoso disputado no Estádio Azteca, em 1985, quando El Tri venceu por 2 a 0.

Suécia: algoz de 1958 – 36 jogos, 15 vitórias, nove empates e 12 derrotas.
Em Copas: três vitórias e uma derrota.

A Alemanha nunca foi derrotada pela Suécia depois da Reunificação alemã. A última derrota foi em 1978, por 3 a 1, num amistoso em Estocolmo. Em Copas, a Nationalelf venceu em 1934 (2x1), em 1974 (4x2) e em 2006 (2x0), com dois gols de Lukas Podolski. Em 1958, em casa, os suecos eliminaram a Alemanha na semifinal, por 3 a 1 – em seguida, perderam a final para o Brasil.

Coreia do Sul: 100% em Mundiais – três jogos, duas vitórias e uma derrota.
Em Copas: duas vitórias.

Último confronto foi em 2004, um amistoso vencido pela Coreia do Sul, em Busan, por 3 a 1. Os outros dois duelos foram em Copas do Mundo. Em 1994, nos EUA, os alemães suaram para derrotar os sul-coreanos por 3 a 2. E, nas semifinais de 2002, em Seul, a Nationalelf carimbou a vaga na final graças ao gol solitário de Michael Ballack.

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A Alemanha na Copa da Rússia

Manuel Neuer

Será que o melhor goleiro da Alemanha conseguirá estar em forma para o torneio? Apesar da longa pausa para se recuperar de contusões, Joachim Löw decidiu levar seu capitão para a concentração no Tirol do Sul.

A Alemanha na Copa da Rússia

Marc-André ter Stegen

O número 1 no gol do Barcelona acabou virando titular da seleção alemã durante a ausência de Neuer. Durante a Copa do Mundo, ele deve ser reserva, caso realmente se confirme a volta do capitão.

A Alemanha na Copa da Rússia

Kevin Trapp

O goleiro do Paris St. Germain também foi escolhido para ir à concentração no norte da Itália, devido à dúvida que paira sobre Neuer. Mas Trapp não é mais titular do PSG e não possui grande experiência: jogou somente três vezes pela seleção alemã..

A Alemanha na Copa da Rússia

Jerome Boateng

Após a lesão muscular em março, as preocupações eram grandes de que o zagueiro não estivesse em forma para a Copa. Boateng permaneceu otimista e embarca para a Rússia.

A Alemanha na Copa da Rússia

Mats Hummels

O zagueiro do Bayern de Munique forma a parte central da defesa alemã - da mesma foma que no clube. Ele também é um dos principais jogadores de Löw na saída de bola.

A Alemanha na Copa da Rússia

Antonio Rüdiger

O atleta do Chelsea tem grande confiança do treinador Joachim Löw e vai à Copa como opção, caso haja problemas na zaga titular, composta por Boateng e Hummels.

A Alemanha na Copa da Rússia

Niklas Süle

O jovem zagueiro do Bayern embarca junto com a seleção alemã como reserva. Ele tem poucas chances de ser escalado para jogar partidas inteiras, a não ser que haja problemas de lesão.

A Alemanha na Copa da Rússia

Joshua Kimmich

O jogador do Bayern de Munique é lateral-direito. Ele também poderia atuar como volante, mas Löw quer que ele jogue mais avançado pela lateral, onde também pode ser perigoso.

A Alemanha na Copa da Rússia

Jonas Hector

O lateral-esquerdo não teve uma boa temporada com o Colônia – primeiro uma grave lesão, depois o rebaixamento. Ele é titular da defesa da seleção alemã.

A Alemanha na Copa da Rússia

Marvin Plattenhardt

O jogador do Hertha Berlin é um dos poucos bons laterais-esquerdos encontrados na Alemanha. Para Löw, o atleta, de 26 anos, é uma alternativa a Hector.

A Alemanha na Copa da Rússia

Matthias Ginter

O zagueiro foi campeão mundial no Brasil, embora não tenha entrado em campo. A convocação de Ginters é uma surpresa. Sua temporada de estreia no Borussia Mönchengladbach foi relativamente fraca.

A Alemanha na Copa da Rússia

Sami Khedira

O volante da Juventus e da seleção alemã é um dos principais jogadores do esquema tático de Joachim Löw.

A Alemanha na Copa da Rússia

Toni Kroos

O volante do Real Madrid joga ao lado de Khedira no meio-campo da seleção alemã e também é uma peça-chave no esquema tático de Löw.

A Alemanha na Copa da Rússia

Sebastian Rudy

O jogador do Bayern de Munique é uma espécie de pau pra toda obra entre os reservas da seleção alemã. Rudy, que eu seu primeiro ano no clube bávaro nem sempre foi titular, pode atuar tanto no meio-campo defensivo como também na defesa.

A Alemanha na Copa da Rússia

Ilkay Gündogan

Machucado, ele deixou de ir à Copa no Brasil por causa de uma lesão, e também não esteve na convocação para a Eurocopa, há dois anos, devido a uma lesão no joelho. Desta vez, na Rússia, ele está apto para defender a seleção alemã.

A Alemanha na Copa da Rússia

Mesut Özil

Ele é brilhante com a bola, mas no campo pode ser discreto: tem fama de sumir em jogos decisivos. Mesmo assim, Löw não pode abrir mão do meia do Arsenal.

A Alemanha na Copa da Rússia

Thomas Müller

"Müller joga sempre", disse certa vez o então treinador do Bayern de Munique Van Gaal. O mesmo vale para o artilheiro da Copa de 2010 em relação à seleção alemã.

A Alemanha na Copa da Rússia

Marco Reus

Finalmente o craque do Borussia Dortmund vai a uma Copa. Em 2014, o atacante foi impedido de estar no time por causa de uma lesão - como tantas vezes em sua carreira.

A Alemanha na Copa da Rússia

Julian Draxler

No PSG, o ex-jogador do Schalke e do Wolfsburg gostaria de ter entrado em campo com mais regularidade Na seleção alemã, deve ser o responsável por imprimir velocidade e pressão pelo lado esquerdo do ataque.

A Alemanha na Copa da Rússia

Leon Goretzka

De saída do Schalke após uma boa temporada, ele reforça o Bayern no próximo Campeonato Alemão. Mas antes viaja para a Copa. Na Rússia, entretanto, o meia deve ficar maior parte do torneio no banco.

A Alemanha na Copa da Rússia

Timo Werner

Rápido e de chute certeiro, o Chuteira de Ouro da Copa das Confederações se tornou imprescindível na lista de Löw.

A Alemanha na Copa da Rússia

Mario Gomez

Com o atacante do Stuttgart, Löw sabe exatamente o que tem em mãos. Gomez foi o atacante mais efetivo na Eurocopa na França até se contundir, antes da semifinal.

A Alemanha na Copa da Rússia

Julian Brandt

Meia do Bayer Leverkusen teve que assumir maiores responsabilidades no clube na última temporada, tendo se tornado, com isso, mais regular e estável. Isso contribuiu para a convocação do meia para a seleção de Löw.

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