Onde Chávez é quase santo

"Aqui não se fala mal de Chávez", lê-se em muros de bairro em Caracas que se mantém essencialmente chavista. Em áreas da Venezuela, figura do ex-líder se tornou mítica – principalmente com o agravamento da crise.

Foi num início de dezembro especialmente frio que Elizabeth Torres, de 62 anos, teve a graça alcançada. Era noite alta quando sua neta engasgou com um brinquedo, um desses bonequinhos que vêm com chocolates em formato de ovo. A menina, conta ela, respirava cada vez com mais dificuldade. "Nem chorar ela chorava, estava ficando roxa."

Sozinha, Elizabeth foi para rua buscar um táxi ou o auxílio de alguém que estivesse passando para levá-la ao hospital. "Mas não havia ninguém, não passava nada, e minha neta ali, morrendo. Foi aí que decidi pedir ajuda ao comandante, para que ele conversasse com Deus", conta ela, claramente emocionada. "Eu disse: 'Chavito, por favor, me ajude, não deixe minha amada morrer'."

Minutos depois, um carro surgiu e a levou para o hospital. "Chávez salvou a vida da minha neta, não tenho a menor dúvida disso", conta ela, diante da Capela Santo Hugo Chávez do 23 de Enero.

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Relatos como o de Elizabeth têm se tornado cada vez mais comuns por aqui. Afundados em uma crise econômica sem precedentes, que empurra o país para uma crise humanitária de graves proporções, um número crescente de venezuelanos começa a ver o ex-presidente como uma entidade quase divina, com poderes para interceder sobre a vida terrena.

Os olhos de Chávez estão por toda parte, como nesta habitação social no bairro 23 de Enero, forte reduto Chavista

Morto em 2013 quando o país ainda vivia das benesses das altas recordes do petróleo, Chávez ainda é figura central na política e na vida cotidiana da Venezuela. Tudo gira em torno de sua figura, agora quase mítica. Seus dotes divinos, no entanto, começaram a ganhar popularidade com o agravamento da crise, especialmente nos bairros mais populares da cidade, onde as mudanças sociais durante os 14 anos que esteve no poder foram profundas.

O bairro de 23 de Enero, na zona oeste de Caracas, é uma dessas áreas da cidade que se mantém essencialmente chavista. Foi daqui que Chávez comandou sua primeira tentativa de governar a Venezuela, um golpe de Estado fracassado que acabou com sua prisão, em 1992.

Foram das colinas desse bairro, que abriga quase 300 mil pessoas, que saíram os primeiros grupos a protestar contra o aumento das tarifas de ônibus em 1989 e que acabou culminando com o chamado Caracazzo: uma série de manifestações e saques que foi duramente oprimida pelo governo, deixando um saldo de cerca de 500 mortos em uma semana.

Pintura de Hugo Chávez jovem no quartel que guarda seus restos mortais

E é aqui que repousam os restos mortais de Chávez. Não à toa, por toda a área se leem nos muros as inscrições: "Aqui não se fala mal de Chávez". No alto de cada prédio estão pintados os olhos do ex-presidente. É como se Chávez fosse onipresente e onisciente nessa parte de Caracas.

A capela que leva seu nome é simples: um pequeno quiosque de madeira com telhado de amianto medindo cerca de seis metros quadrados. Lá dentro estão imagens de Jesus Cristo e de santos católicos, fotos de Chávez e uma série de pequenas lembranças de pessoas que garantem ter sido agraciadas por milagres ou auxílios divinos do ex-presidente venezuelano.

"Sempre vem alguém aqui deixar fotos, placas, agradecimentos", conta Elizabeth, que atua como uma guardiã da capela desde que, segundo ela, Chávez salvou a vida de sua neta. "A cada três dias eu deixo uma xícara de café preto bem forte para ele, bem aqui ao lado da foto mais bonita do meu comandante. Ele amava café preto", conta ela, abrindo um sorriso que deixa à mostra o resto dos dentes que se foram por conta das cáries que parecem jamais ter enfrentado um dentista.

Entrada da Capela Santo Hugo Chávez

Nem todos por aqui acreditam que Chávez é Santo. Mas praticamente todos os moradores dessa e de outras regiões consideradas chavistas em Caracas ou na Venezuela acreditam que a situação estaria muito diferente se o ex-presidente ainda estivesse no poder.

"Maduro não é Chávez, nós sabemos disso. Ele não tem a força de nosso comandante; é uma tarefa muito difícil enfrentar a guerra econômica da qual estamos sendo vítimas", conta Alberto Santos, de 45 anos, um taxista que mora não muito distante da Capela de Chávez. Ele não acredita nos poderes divinos do ex-presidente, mas não tem dúvida que as coisas estariam melhores com ele por aqui.

Placa agradecendo graça alcançada na Capela Santo Hugo Chávez

"Há muita gente desesperada, que busca a saída na fé. Não as condeno, mas nossos problemas são muito terrenos", conta ele, tentando explicar que as mazelas do país são responsabilidade da elite financeira venezuelana e dos Estados Unidos, sempre sedentos pela fartura petrolífera da Venezuela.

Com inegável carisma e liderança inigualável na história recente venezuelana, Hugo Chávez também teve muita sorte em seus anos como presidente. Ao assumir o poder, em 1999, o preço do barril de petróleo não passava de 8 dólares, mas iniciava uma valorização sem precedentes. Ao final de seu primeiro ano como presidente, a cotação já havia disparado para quase 20 dólares. Ao fim da primeira década, o barril do cru venezuelano já havia cruzado a barreira dos 110 dólares.

"Foi simplesmente algo inacreditável o que aconteceu, uma valorização que nós jamais tínhamos visto. Ao longo de seu governo entraram no país mais de 1 trilhão de dólares", diz José Toro Hardy, um dos principais economistas venezuelanos e ex-diretor da PDVSA, a estatal petroleira da Venezuela e responsável por quase 100% dos recursos externos que chegam ao país.

Pinturas no centro de Caracas em apoio a Chávez e Maduro

Com tanto dinheiro, Chávez iniciou um processo de distribuição de renda sem precedentes. Passou a oferecer moradias, carros, montou uma ampla rede de saúde nas áreas mais pobres, ampliou o crédito para o consumo e aprofundou ainda mais os subsídios estatais em áreas estratégicas, como transporte público, energia e combustível. Pela primeira vez, as riquezas do petróleo chegavam aos mais pobres.

"Houve avanços inegáveis em sua gestão, mas, no entanto, elas foram feitas sem nenhuma responsabilidade, sem nenhum pensamento de que tudo que sobe, pode cair", diz Toro. Os reflexos dessa política ainda permanecem sob o governo de Maduro, ao menos no que tange aos subsídios. Hoje, com apenas 1 dólar é possível comprar mais de 200 litros de gasolina de alta qualidade na Venezuela. Metrô, energia elétrica e telefonia fixa são virtualmente gratuitos no país.

Chávez morreu com o petróleo em alta. No mês de sua morte, o barril estava cotado em mais de 100 dólares. Mas foi só Maduro assumir o poder para que se iniciasse uma baixa histórica nos preços da commodity. Dois anos após tomar posse, Maduro via o preço cair pela metade. No terceiro aniversário como presidente, a cotação já era o equivalente a um quinto do preço quando assumiu o poder.

Pintura em parede no bairro 23 de Enero indicando que a área é protegida pelas milícias chavistas

"É claro que Maduro não é exatamente talhado para ser presidente, mas ele também teve muito azar. Com o que aconteceu no mercado internacional de petróleo é fácil entender porque tudo ainda gira em torno de Chávez neste país", diz o cientista politico Luis Lander, do Observatório Eleitoral Venezuelano.

Nancy Aria, uma dona de casa de 33 anos e mãe de sete filhos, mal se lembra da última vez em que comeu carne. Ela, como uma parte significativa da população venezuelana, depende do programa de distribuição de alimentos do governo para conseguir sobreviver. São tempos duros e a dieta da família é hoje à base de farináceos, gordura e açúcar, com pouca ou nenhuma proteína animal.

"As coisas estão difíceis, há uma guerra econômica contra a Venezuela", diz Nancy, repetindo a teoria do governo de que a crise venezuelana se explica por conta de um ataque das grandes potências ao país. "Se Chávez estivesse aqui, as coisas seriam diferentes, mas Maduro está fazendo tudo o que pode", diz. "Seguimos lutando pela revolução".

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Em tempos de crise, venezuelanos buscam cura pela bruxaria

Em caso de urgência, procure um feiticeiro

Eles são chamados de bruxos – e, para muitos venezuelanos, são a única alternativa de tratamento de doenças. A crise no sistema de saúde fez com que muitos não consigam mais pagar tratamentos médicos convencionais. Medicamentos são escassos e extremamente caros. Muitas vezes, pacientes com câncer também não têm acesso à quimioterapia.

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Cura no "consultório espiritual"

Em vez da aparelhagem médica, velas e estátuas: muitos venezuelanos adotaram a medicina alternativa. Num beco da favela de Petare, na região metropolitana de Caracas, dezenas de pacientes vão diariamente a um dos "consultórios espirituais", na esperança de conseguir a cura que não conseguem buscar na medicina convencional.

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"Beco dos bruxos" existe há mais de 50 anos

"El callejón de los brujos", ou "beco dos bruxos", é o nome popular dessa rua na favela de Petare. Há meio século, pacientes de todo o país vêm para cá. O movimento é especialmente grande aos sábados. Curandeiros e bruxos praticam a cura pelas mãos para amenizar o sofrimento dos doentes.

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Sem dinheiro para a cirurgia

Com frequência, os pacientes que vão ao "beco dos bruxos" não têm como arcar com as despesas de um tratamento hospitalar. Seriam obrigados a pagar centenas de dólares do próprio bolso por uma operação. É dinheiro demais para as pessoas na Venezuela, assolada por hiperinflação, fome, criminalidade e escassez de alimentos. Já consultar um curandeiro custa apenas um dólar.

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Questão de fé

Centenas de pessoas esperam diariamente para serem tratadas por um bruxo ou um curandeiro. Os curandeiros apostam em tratamentos baratos: dieta, rituais, toque de mãos. As intervenções espirituais devem "equilibrar a energia do paciente", explica um desses médicos tradicionais.

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Velas para combater doenças

Os mais jovens também recebem tratamentos. "Mas o espírito precisa autorizar o tratamento primeiro", explica um curandeiro. Algumas pessoas também se cadastram para um tratamento convencional, e a excursão pela medicina alternativa serve, entre outras coisas, para encurtar o tempo de espera até o início da terapia no hospital.

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