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Seleção reflete Alemanha

25 de junho de 2010

A Alemanha está nas oitavas de final da Copa. O surpreendente, porém, não está tanto no êxito esportivo, mas na percepção da seleção pela sociedade, opina Ramón García-Ziemsen, da redação de cultura da Deutsche Welle.

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Sejamos honestos: para o futebol, é também uma perda. Antigamente, na Idade Média do futebol, ou seja, até 2006, as seleções alemãs eram tidas como a encarnação de um país temível, como vilões que, com um jogo feio, roubavam a vitória dos países de jogo bonito. Algo, de uma certa maneira, tipicamente alemão.

Os jogadores eram "tanques alemães" – e isso ainda era uma das descrições positivas. Um autor inglês chegou a escrever que uma Copa do Mundo sem os alemães seria algo como Guerra nas Estrelas sem Darth Vader. Darth Vader é o maior vilão desse filme norte-americano de ficção científica.

E isso era, com inveja, visto dessa maneira também na Alemanha: os outros podiam driblar; os alemães, defender e, na melhor das hipóteses, correr.

E também a identificação com a própria equipe era diferente: os outros festejavam à vontade com uma paixão patriótica; para os alemães, isso era por demais nacionalista, lidar com símbolos patrióticos de forma descontraída era quase inconcebível.

E agora? Agora tudo é diferente – o vilão mudou de lado, os alemães amam a sua equipe e nas ruas vê-se um patriotismo alegre e espontâneo.

Como isso pôde acontecer?

Se as seleções nacionais realmente são o espelho de um país, então os alemães estão gostando do que veem: trata-se de um grupo multicultural de jovens, com raízes da Tunísia a Gana, da Polônia à Turquia.

A imprensa mundial se mostra surpresa com o fato de a Alemanha ter se tornado tão colorida e internacional. Quase metade dos jogadores da seleção alemã tem raízes estrangeiras. Özil, Khedira, Boateng – o que é normal na seleção já é rotina na Alemanha.

E esta equipe tenta ser criativa, tenta irradiar alegria e descontração – não exatamente conceitos associados à Alemanha no mundo. Também erros são perdoados. Não se quer ser sempre perfeito, também se quer, para ficar na linguagem do futebol, perder um pênalti de vez em quando, assim como o alemão Lukas Podolski fez nesta Copa. Claro, corre-se um grande risco de exagerar. Mas, mesmo assim: talvez também esta seja uma constatação sobre esta Alemanha: ela também pode perder.

A bola é redonda para que os pensamentos possam mudar de direção.

Um pouco triste é o olhar sobre os nossos grandes vizinhos futebolísticos: na Itália sentem vergonha dos "coxos e mancos" que não se atreveram a mostrar algo de novo. O estado da equipe nacional seria como o do país.

Na França, está-se chocado com uma equipe dividida, fala-se de uma derrota moral. A maioria dos franceses queria a derrota do time na fase inicial. E também na Inglaterra se resmunga acima de tudo e se olha apenas para o resultado do jogo.

Foi também o conto de verão de 2006, a Copa do Mundo na Alemanha, que trouxe tantas visões inovadoras: o sol pode brilhar na Alemanha, os alemães sabem festejar e até mesmo rir. E somos bons anfitriões. De repente se vestiu a camisa, a Alemanha reviveu o retorno de símbolos nacionais através de um patriotismo saudável, que não cheira a nacionalismo.

Isso era para muitos, inclusive para mim, às vezes um pouco demais, mas afinal havia também algo a ser recuperado. Afinal, depois de 1945, o uso de símbolos nacionais era extremamente problemático: para muitos era quase desconfortável ouvir o hino nacional. A atitude em relação à nação e a tudo o que é nacional era marcada pelos crimes que os alemães haviam praticado sob o regime nazista.

Hoje, nas ruas, vê-se que a bandeira da Alemanha praticamente virou um acessório da moda, completamente apolítico, uma expressão de coletividade. Estamos contentes em ver uma equipe concentrada e alegre, que joga a bola com criatividade para a frente, e na qual jogadores de nome Cacau marcam gols.

Ou seja, algo tipicamente alemão.

Autor: Ramón García-Ziemsen

Revisão: Alexandre Schossler