Opinião: Um ponto de interrogação no Congo

Há indícios de irregularidades na eleição que elegeu Félix Tshisekedi. Com presidente eleito como possível fantoche do clã atualmente no poder, uma verdadeira mudança política no país parece distante, opina Dirke Köpp.
Dirke Köpp
Dirke Köpp

Foi uma enorme surpresa: em vez de Emmanuel Ramazani Shadary, o candidato escolhido pelo ainda presidente da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, quem saiu vencedor da eleição presidencial nesta quinta-feira (11/01) foi Félix Tshisekedi. Logo vieram reações de alegria, e falou-se de uma primeira troca de poder pacífica na história do país. Teria sido tão bom!

Na realidade, parece, porém, que o clã ao redor do ainda presidente Kabila conseguiu manter o próprio poder: antes mesmo da publicação dos resultados oficiais, o porta-voz da maioria no governo anunciou na noite de quinta-feira que seu o seu partido novamente saiu das eleições parlamentares como a força mais forte. Numa coabitação com o clã Kabila, Tshisekedi inevitavelmente será um fantoche.

Por trás do discurso otimista de uma troca de poder pacífica há, portanto um enorme ponto de interrogação. Será que todos vão realmente aceitar Tshisekedi como presidente? E que competências caberão a ele enquanto é rondado por generais e estrategistas de Kabila?

O candidato da oposição Martin Fayulu coloca em dúvida o resultado das urnas. Também a poderosa conferência episcopal Cenco declarou que os relatórios de seus cerca de 40 mil observadores não conferem com os resultados oficiais.

Como a Igreja Católica tem grande influência no Congo, é muito importante os bispos terem conclamado imediatamente à moderação, frisando que, para um apelo contra os resultados, só se devem optar pelas vias constitucionais.

Após três adiamentos do pleito, portanto, a situação permanece caótica no país africano. Em quem os cidadãos devem acreditar? A maioria há muito já desconfia de Kabila e está feliz por se ver livre dele. Entretanto, Tshisekedi está longe de desfrutar da confiança que se tinha em seu pai, Étienne.

Fayulu teria sido, antes, a alternativa para o eleitorado congolês. No entanto, ele é apoiado pelo ex-comandante de milícia Jean-Pierre Bemba e por Moise Katumbi, ex-governador da província de Katanga, rica em matérias-primas. Ambos mostraram, no passado, poucos escrúpulos ao impor os próprios interesses. E, está claro, seu apoio ao oposicionista não é altruístico.

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No entanto, segundo sugerem os bispos, é justamente de Fayulu que a vitória eleitoral foi roubada, e a culpa seria de um "arranjo" entre Kabila e Tshisekedi. Os boatos nesse sentido circulam desde que a oposição concordou quanto a um candidato comum – Tshisekedi e seu companheiro de estrada, o veterano da política Vital Kamerhe –, mas retirou o anúncio no prazo de um dia, divulgando que Tshisekedi concorreria sozinho.

Pode ser que haja mesmo esse arranjo. Pois, afinal de contas, também Kabila teve que compreender que seu candidato não tinha qualquer chance de ser aceito, nem pelo eleitorado, nem em nível internacional. Devido à repressão sangrenta de protestos, a União Europeia impôs e prorrogou sanções contra ele, e para a população seria apenas a continuação do odiado regime.

Portanto Kabila precisava de um "plano B" para manter sua influência no Congo e, ao mesmo tempo, entrar para a história como um dos presidentes africanos que abriram mão voluntariamente do poder. Possivelmente ele pôs esse plano em prática com Tshisekedi. Este quer prestar uma última homenagem ao pai que, durante anos, tentou em vão se tornar presidente; e gostaria de proporcionar o último repouso em Kinshasa a Étienne Tshisekedi, cujo cadáver está há quase dois anos refrigerado na Bélgica, pois o regime não permite o traslado.

Outros indícios de um acerto entre Kabila e Tshisekedi foram a admissão surpreendentemente rápida da derrota por Shadary, o candidato do atual presidente; e os elogios de Tshisekedi para este, como parceiro na reforma democrática – embora Kabila tenha humilhado seu pai tantas vezes, e até depois de morto. Além disso, um apoiador do presidente eleito comentou à DW: "Nós não tínhamos armas para expulsar Kabila, tivemos que discutir com ele."

Em meio a tanto caos e falta de transparência, não é de espantar que a participação nas urnas tenha ficado abaixo de 40%. Os congoleses estão fartos de política. Cabe desejar-lhes, do fundo do coração, que a luta pela vitória eleitoral não custe novas vítimas, e que finalmente haja paz num país em que há décadas os militares cometem seus desmandos impunemente.

Isso parece também ser o que muitos congoleses mais desejam: se o novo presidente trouxer paz, eles o aceitarão, mesmo sem tê-lo eleito. A esperança deles é que a vida finalmente se torne mais fácil, sem guerra, sem violência, sem medo. E sem Kabila.

Para quem observa de fora, contudo, é difícil aceitar que essa esperança se torne realidade por meio de um "arranjo" e de fraude eleitoral.

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