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Os brasileiros com coronavírus na Alemanha 

Karina Gomes
30 de março de 2020

"Tenho certeza, por experiência própria, que não é uma gripezinha", relata brasileira que mora na Baviera. Diagnosticados com a doença relatam rotina de isolamento e experiências com serviço de saúde em meio à pandemia.

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Ruas desertas em Stuttgart, na Alemanha
Ruas desertas em Stuttgart, na Alemanha. País registrou 63 mil casos de covid-19Foto: imago images/Lichtgut/L. H. Piechowski

"Levei sete dias para saber o resultado. E deu positivo." Depois de informações imprecisas e idas e vindas com um laboratório médico na Baviera, no sul da Alemanha, uma brasileira de 39 anos de Florianópolis que preferiu não se identificar recebeu nesta segunda-feira (30/03) o veredito sobre a tosse constante, a falta de ar, a febre e a dor de cabeça intensa que sente desde 18 de março: contaminação pelo novo coronavírus Sars-Cov-2, causador da doença respiratória covid-19.  

"Ao contrário do [presidente Jair] Bolsonaro, tenho certeza, por experiência própria, que não é uma 'gripezinha'. Eu estou 'inválida' há quase duas semanas", contou em entrevista à DW Brasil. "A recomendação que recebi é ligar ou ir ao hospital se sentir dor no peito ou falta de ar. Os sintomas não somem simplesmente. Apenas diminuíram de intensidade neste fim de semana, depois de dez dias." 

O resultado do teste do noivo da brasileira deu negativo e ele se isolou de imediato em outra residência. "O pior são os vizinhos. A vizinhança ficou sabendo da suspeita, porque uma equipe médica veio aqui em casa para fazer o teste. E agora todos estão me olhando como se eu fosse 'a infectada'. A fofoca atingiu um nível que eu não imaginava", lamentou. "Como eu estava no jardim na semana passada, ainda com a suspeita, eles acharam que poderiam ser contaminados pela proximidade dos prédios e foram pedir testes aos seus médicos." 

Até esta segunda-feira (30/03), a Alemanha registrava mais de 63 mil casos de covid-19 e 560 mortes desde o início da pandemia, segundo contagem mantida pela Universidade Johns Hopkins.

Acompanhamento médico 

Marina Franceschinelli, de 33 anos, que vive em Düsseldorf, no oeste da Alemanha, começou a ter os sintomas há duas semanas. "Comecei a sentir dor no corpo, a ter tosse seca, diarreia e febre", conta.  

A brasileira entrou em contato com a sua médica da família (Hausärztin, em alemão). A clínica geral acompanhou o desenvolvimento dos sintomas por telefone e medicou um antigripal. "Naquela mesma noite, comecei a sentir falta de ar e passei a dormir sentada, pois não conseguia respirar deitada", relata.  

O governo alemão estabeleceu centrais de atendimento por telefone – chamadas de "hotline" – para pacientes com sintomas do coronavírus. A médica de Marina pediu que ela comunicasse seu quadro à central telefônica de Düsseldorf e ficasse em isolamento total. Ela também foi aconselhada a contar sobre os sintomas a todas as pessoas com quem tinha tido contato nas duas semanas anteriores para que também se isolassem.  

"Entrei em contato com todas essas pessoas. Como faço curso de alemão todos os dias da semana, descobri que uma colega da minha sala estava com o coronavírus e internada, e uma outra, também infectada, estava bem mal", conta.  

Depois de entrar em contato com a "hotline", Maria recebeu uma carta das autoridades de saúde alemãs que deveria ser entregue no trabalho ou na escola para justificar faltas e ainda facilitar a entrada dela no hospital, caso os sintomas se agravassem. 

Remédios para lidar com sintomas do coronavírus
Foto: privat

Durante uma semana, Marina teve febre, dor no corpo e falta de ar. "Tive dois dias muito difíceis, principalmente à noite, por causa da falta de ar. Cheguei a vomitar e sentia uma falta de ar muito ruim como se estivesse me afogando", relata.   

"Tanto a minha médica quanto a 'hotline' me ligaram todos os dias para saber como eu estava me sentindo. A minha médica cogitou a possibilidade de fazer um teste, mas achou desnecessário, uma vez que eu tive contato com pessoas que tinham testado positivo", explica a brasileira. "Mesmo à distância, foram extremamente amigáveis e atenciosos comigo. Como sei que muitas pessoas realmente precisam do hospital, optei por tentar controlar em casa para dar minha possível vaga para alguém do grupo de risco."  

Marina continua isolada em casa com o namorado, que não apresentou sintomas da doença.  

Diário de sintomas 

Juliene Melzer, que vive em Hückeswagen, no oeste da Alemanha, teve contato em Amsterdã com uma pessoa assintomática, que mais tarde testou positivo para a covid-19. "Na mesma época, eu tive febre, que veio seguida de uma tosse seca muito forte e falta de ar. Logo depois, meu marido ficou doente com os mesmos sintomas", conta. 

Dois funcionários do serviço de saúde público local (Gesundheitsamt) foram ao apartamento do casal protegidos com luvas, máscara e vestimenta de proteção. "O exame foi realizado rapidamente. Eles nos deram algumas recomendações sobre cuidados e higiene em casa. Também informaram que independentemente do resultado deveríamos ficar em quarentena obrigatória por 14 dias, sob pena de multa de 2.500 euros", disse.  

O casal também recebeu um e-mail com instruções que exigia que mantivessem um diário de sintomas e checassem constantemente a temperatura corporal. Os serviços de saúde mantêm um contato telefônico diário com pacientes com suspeita da doença e os que têm o diagnóstico confirmado. Juliene e o marido testaram negativo e saíram da quarentena na semana passada.  

"Demorou para conseguir o primeiro contato telefônico com a 'hotline', mas depois que conseguimos fomos muito bem atendidos", afirma.  

Alta demanda por testes 

Karolyne Cardoso Manganelli, de 22 anos, mora com o marido na mesma casa em que vive o chefe da sorveteria onde ele trabalha em Bamberg, na Baviera. O chefe, o casal e o filho deles, além dos cunhados de Karolyne, apresentaram os mesmos sintomas num período de uma semana. O primeiro a ficar doente foi o chefe. Dois dias depois, foi a vez do marido de Karolyne.  

Diário sobre sintomas do coronavírus
Brasileira com o coronavírus mantém um diário com os sintomas e a temperatura corporal Foto: privat

"O meu marido passou muito mal. Nada baixava a febre, ele tinha dores pelo corpo, dor de garganta, vômito, diarreia, dor de cabeça, não conseguia comer e passou o dia dormindo, tomando ibuprofeno que a médica da clínica receitou e tomando banho morno para ver se a febre baixava", conta. 

Ele foi a uma clínica médica duas vezes e mais duas vezes ao hospital, com a piora dos sintomas, mas sempre foi enviado para casa. "A médica perguntou se ele tinha tido contato com estrangeiros ou viajado. Ele disse que não e foi mandado para casa apesar dos sintomas. A médica não mandou fazer quarentena, nem nada", relata.   

Karolyne conta ainda que uma semana depois dos primeiros sintomas, toda a família teve conjuntivite. A infecção é considerada pela Academia Americana de Oftalmologia como um sintoma relacionado à covid-19, embora isso só tenha sido observado em uma porcentagem muito baixa de infectados pelo coronavírus. 

"A partir daí, tivemos a plena certeza de que enfrentamos o tão temido coronavírus de forma errada, já que não fomos diagnosticados com a doença e nem testados. Seguimos nossa vida, tomando remédio para dor, chás e estamos todos de quarentena em casa, já que tudo está fechado e parado aqui na nossa cidade", diz.  

Luciene de Paula, que mora em Hannover, no norte da Alemanha, apresentou dor de garganta, dor no corpo, diarreia e muita dificuldade para respirar por pelo menos quatro dias. Quando ligou para a médica, perguntou sobre a possibilidade de ser o coronavírus. "A gente não tem como testar todo mundo assim loucamente", respondeu a médica, segundo ela. 

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