Os muitos Brasis de muitas verdades

Bolsonaro diz que os índios deveriam viver no "Brasil de verdade". É uma imagem limitada e autoritária de um país cuja quintessência é a pluralidade, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.

Foi uma das primeiras medidas do novo governo. Eu a encarei como brutal e triste. Por decreto, Jair Bolsonaro submeteu as terras indígenas ao Ministério da Agricultura. A nova chefe da pasta, Tereza Cristina, defende os interesses do agronegócio, que está numa espécie de guerra com os índios há décadas. Há mortes todos os anos. E são sempre os índios, nunca os latifundiários ou seus pistoleiros. Ou seja: Bolsonaro transformou em jardineiro o bode que está esperando para destruir o jardim.

Os motivos são claros: ele precisa satisfazer os ruralistas, um dos seus grupos de eleitores mais importantes. Precisa do apoio da "bancada do boi" no Congresso. E também aprendeu com Maquiavel: "As injustiças devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, pouco saboreadas, ofendam menos (...)."

Por trás de tudo isso, porém, há algo mais grave: uma visão muito limitada e autoritária do Brasil. A justificativa tuitada pelo presidente chamou minha atenção: "Menos de um milhão de pessoas vivem nestes lugares isolados do Brasil de verdade, exploradas e manipuladas por ONGs." Eu me perguntei: qual é esse "Brasil de verdade" do presidente? E por que ele simplesmente não pergunta aos próprios indígenas em que "Brasil de verdade" eles gostariam de viver? Há 500 anos, muito cara-pálida falou pelos índios. Bolsonaro é só mais um.

Lembrei das minhas pesquisas junto aos povos Suruí, Cinta Larga e Tenharim ao longo da fronteira agrária em Rondônia e no Amazonas. E da minha viagem às reservas dos índios Guarani em Mato Grosso do Sul, onde vivem em condições precárias em meio a imensos pastos de gado e campos de grãos, esquecidos pelo Estado e pela sociedade. Todas as tentativas intentos deles de sair dessa situação são respondidas com violência.

Nessas reservas, não vi ONGs que "manipulavam e exploravam" os indígenas. Mas com frequência vi igrejas evangélicas cujos pastores diziam aos índios que sua língua, seus cânticos, seu vestuário e seus deuses florestais eram "coisa do demônio". E depois de falar essas besteiras, exigiam o dízimo.

Brasilien Philipp Lichterbeck | Post aus Rio

Philipp Lichterbeck é colunista e repórter da DW Brasil

Por isso, um grupo de índios Suruí em Rondônia permitiu a entrada de madeireiros ilegais na floresta, onde puderam derrubar as maiores e mais valiosas árvores em troca de uma taxa. Com o dinheiro, os Suruí pagavam o dízimo. Mas houve uma disputa com outros Suruí que diziam que isso era errado. Assim, o povo ficou dividido entre si.

Os fiscais do Ibama na região também ficaram com raiva. Disseram que se sentiam impotentes, que tinham medo que a máfia dos madeireiros incendiaria a estação se eles impedissem o transporte ilegal de árvores.

Mas afinal, de que lado está o presidente? Ele está com os madeireiros, os pastores evangélicos e os Suruí que vendem a floresta ilegalmente? Ou ele está ao lado dos Suruí do bem e os fiscais, que querem defender a lei?

Conto tudo isso para mostrar como a narrativa desse governo é rasa e isenta de complexidade. Se acreditarmos nela, o Brasil está cheio de professores marxistas, artistas degenerados, defensores dos direitos humanos que defendem bandidos e índios preguiçosos. E, naturalmente, também está cheio de jornalistas estrangeiros que são adeptos do PT.

Em primeiro lugar, sempre está a definição da realidade, descrita como terrível e descontrolada. Portanto, é preciso adotar medidas drásticas para reassumir o controle. É a metodologia de todos os regimes autoritários, tanto de direita quanto de esquerda. O poder sempre é também o poder de definir.

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Mas, para que a narrativa funcione, são necessárias pessoas que acreditem nela. E, surpreendentemente, sempre há muitas delas. O matemático e filósofo britânico Bertrand Russell explicou da seguinte maneira: "O problema do mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas."

Então, o presidente do Brasil fala que os índios deveriam viver no "Brasil de verdade". A que Brasil ele se refere? À Barra da Tijuca onde fica o seu condomínio? Às casernas dos militares que ele tanto venera? Ou ao Brasil da música sertaneja e dos rodeios?

Será que esse "Brasil de verdade" existe, afinal? Ou é apenas um devaneio como o socialismo que Bolsonaro combate tão fervorosamente quanto Dom Quixote os moinhos, que ele toma por gigantes?

Quem viajou uma vez pelo Brasil sabe que não existe um "Brasil de verdade". Conheci viticultores na Serra Gaúcha e pescadores no Delta do Parnaíba. Conheci latifundistas em Mato Grosso do Sul e quilombolas no Recôncavo Baiano. Conheci um criador de aves com dezenas de araras em Poços de Caldas e um colecionador de cristais na Chapada dos Veadeiros. Conheci um jogador de futebol profissional do Grêmio e um catador de lixo no Rio de Janeiro: um médico jovem do programa Mais Médicos em São João del Rei e um pajé velho e cego no rio Madeira; o porta-voz dos Jogos Olímpicos de 2016 e a porta-voz da favela que deu lugar ao Parque Olímpico. Não existe um "Brasil de verdade", mas muitos Brasis de muitas verdades. Quem diz o contrário não tem ideia do que é esse pais. A pluralidade é característica desse país. E, finalmente, é preciso fazer com que o reconhecimento dos primeiros povos do país façam parte dessa diversidade.

Existem mais de 300 povos indígenas por aqui, que falam mais de 270 línguas diferentes. Na maior parte das vezes, são pobres. Mas não empobrecem o Brasil: pelo contrário, o enriquecem. Mas ainda não sê vê a tradição indígena como tesouro cultural, com todo o pensamento, os hábitos de vida, os rituais milenares. "Há interesse em quadros de Monet ou Renoir, o que é louvável, mas não em pinturas indígenas extremamente ricas, de até mil anos atrás", bem observou o professor da USP Gerson Damiani.

Os governos do PT foram péssimos para os povos originários do Brasil e para o meio ambiente. Foi Lula que quis construir Belo Monte a todo custo; e Dilma demarcou o menor número de terras indígenas entre todos os governantes do país desde 1985. O PT também não falava com os índios, decidia por eles. Exatamente como Bolsonaro faz agora.

O PT foi um desastre para o meio ambiente e os índios. Com Bolsonaro, eles estão ameaçados pelo apocalipse.

O deputado estadual recém-eleito do PSL do Rio de Janeiro Rodrigo Amorim disse que "quem gosta de índio, que vá para a Bolívia, que, além de ser comunista, ainda é presidida por um índio". Quem é que não pensa em Bertrand Russell?!

Mas, quando se fala realmente com os indígenas, ouve-se o seguinte: "Achar que a população indígena, estando em terras demarcadas, não está integrada à sociedade é um pensamento retrógrado." A frase é do Conselho Indígena de Roraima. O que querem os indígenas? Antes de tudo, querem ser ouvidos.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

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Direitos humanos

Junto às margens

Os índios da etnia munduruku habitam principalmente as regiões de florestas, às margens de rios. Estão distribuídos especialmente no vale do rio Tapajós, no Pará, e nos estados do Amazonas e Mato Grosso. Atualmente, estima-se que a população de índios munduruku seja de 12 a 15 mil.

Direitos humanos

A cacica

Atualmente, algumas aldeias de munduruku são representadas por mulheres, conhecidas como cacicas. Maria Anicéia Akay Munduruku, da região do Alto Tapajós, faz parte do movimento pela demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu e contra a construção de hidrelétricas. Ela não fala português: para se comunicar com os demais fora da comunidade, ela precisa da ajuda na tradução, feita pelo marido.

Direitos humanos

As ameaças

Os moradores da Terra Indígena Sawré Muybu aguardam a homologação do território que habitam há pelo menos três séculos. A área, de 178 mil hectares, sofre ameaça principalmente de madeireiros, garimpeiros e, agora, pode ser impactada pela construção de hidrelétricas. Como estratégia, os indígenas iniciaram a autodemarcação do território com instalação de placas que imitam as oficiais.

Direitos humanos

A essência da vida

Para os mundurukus, o rio Tapajós é a essência da vida indígena. Eles dependem de suas águas principalmente para se alimentar e se locomover. Estudos apontam a existência de mais de 110 espécies de peixes, além do peixe-boi e ariranha. Animais como anta e tamanduá-bandeira também vivem às margens do rio.

Direitos humanos

Trabalho diário

Na época de chuvas, que vai de dezembro a maio, o nível do Tapajós chega a subir sete metros. Já na estação seca, de junho a novembro, a água volta ao curso normal. Nos igarapés da aldeia Sawré Muybu, indígenas tomam banho, lavam a louça e a roupa no começo e no final do dia.

Direitos humanos

Professores indígenas

As crianças munduruku frequentam a escola da aldeia, sob orientação de professores indígenas. Normalmente, apenas o ensino fundamental é oferecido nas comunidades. Na foto, as meninas brincam na sala de aula compartilhada na aldeia Sawré Muybu durante o período de férias escolares. Alguns animais, como macaco, papagaio, cachorro e capivara convivem com as crianças na aldeia.

Direitos humanos

A bebida tradicional

Em ocasiões especiais, como visitas à comunidade, as famílias mundurukus preparam uma bebida conhecida como kaxidi. Ela é feita de batata-doce, farinha de mandioca e caldo de cana ou açúcar. Embora consumam principalmente alimentos cultivados nas roças, alguns produtos não tradicionais fazem parte da dieta há algum tempo, como açúcar, sal, café, e são comprados na cidade cerca de uma vez por mês.

Direitos humanos

Mandioca, batata-doce, cará e banana

A farinha é o principal alimento nas aldeias mundurukus. Ela é fabricada artesanalmente, por quase toda a família. A mandioca, plantada na roça familiar, é triturada, ralada e depois torrada num tacho aquecido com lenha. O produto é armazenado em sacos de estopa e servido praticamente em todas as refeições. Além da mandioca, os índios cultivam principalmente batata-doce, cará e banana.

Direitos humanos

A ameaça

Vista aérea da hidrelétrica Teles Pires, construída no leito do rio homônimo, afluente do Tapajós, localizada na divisa dos estados do Pará e Mato Grosso. Pronta desde 2015, a usina tem potência instalada de 1820 MW, mas ainda está praticamente sem produzir eletricidade devido à falta de linhas de transmissão. A cor verde mais clara indica área de floresta que foi submersa.

Direitos humanos

Participação chinesa

Imagem aérea mostra obras de construção da hidrelétrica São Manoel, com início de operação prevista para janeiro de 2018. Com participação da indústria chinesa, empreendimento está orçado em R$ 2,2 bilhões. A usina também está localizada no rio Teles Pires, afluente do Tapajós, e terá capacidade para gerar 700 MW.

Direitos humanos

Perda da terra e fim da subsistência

Se construída, a hidrelétrica São Luiz do Tapajós ficará nesse trecho do rio, que tem águas verde-azuladas, corredeiras, praias, cachoeiras e igarapés. Os reservatórios poderão inundar até 7% da Terra Indígena Sawré Muybu. Para os mundurukus, o barramento do rio significa a perda de território e dos meios de subsistência, além de piorar qualidade da água e interferir na reprodução dos peixes.