"Rompimento de plataforma de gelo na Antártida pode ter efeitos terríveis"

Iceberg gigante está prestes a se desprender da plataforma Larsen C, cortada por uma grande fenda. Em entrevista à DW, cientista americano fala sobre o fenômeno e sobre a política climática de Trump.

Uma grande fissura ameaça romper a plataforma de gelo Larsen C, localizada na Península Antártica. Com o rompimento,  se desprenderia da massa de gelo flutuante um iceberg gigante, de cerca de 5 mil quilômetros quadrados, o que equivale a cerca de quatro vezes à área da cidade do Rio de Janeiro.

Natureza e meio ambiente | 17.03.2017

Com o derretimento do gelo antártico, os cientistas acreditam que o pedaço de gelo deverá se soltar em breve, acarretando consequências dramáticas. Além disso, a saída dos EUA do Acordo do Clima de Paris e os cortes nas verbas de pesquisas científicas estipulados por Trump poderão dificultar estudos futuros sobre as mudanças climáticas.

Em entrevista à Deutsche Welle, John Abraham, professor de Ciências Térmicas na Universidade São Thomas, em St. Paul, no estado de Minnesota, falou da importância da Larsen C e sobre como a comunidade científica está lidando com as ações de Trump.

"Estávamos com muito medo que os Estados Unidos permanecessem no Acordo de Paris e o sabotassem por dentro", disse o cientista.

Natureza e meio ambiente | 01.03.2017

DW: Quais seriam as consequências do desprendimento dessa grande porção de gelo da Larsen C no oceano?

John Abraham: Falando francamente, as consequências poderiam ser terríveis, mas não sabemos exatamente. Essas plataformas de gelo estabilizam os mantos de gelo [geleiras continentais] – mas, quando elas se partem, podem criar uma situação de instabilidade. O que os cientistas realmente querem saber é o que vai acontecer quando essa placa de gelo romper.

Quando se espera que isso aconteça e como vamos saber?

Os cientistas sabem que irá acontecer porque estamos assistindo em tempo real. Uma grande rachadura – às vezes chamada de "fenda" – se formou, e podemos vê-la progredir dia a dia, semana a semana. A fissura já se estendeu por quase toda a placa de gelo.

Antarktis - Larsen-Schelfeis

Plataformas de gelo Larsen estão se desintegrando há duas décadas

Não se trata da primeira vez que isso acontece. Porções das plataformas de gelo Larsen A e Larsen B também já se desprenderam. Desde quando esse fenômeno se observa?

A Larsen A, uma das menores plataformas de gelo, desintegrou-se em 1995. Ela foi seguida por Larsen B, que colapsou dramaticamente em 2002, em questão de poucas semanas. E agora temos Larsen C, que vem se desintegrando ao longo de 2016 e 2017. Em termos de tempo de vida dessas plataformas, trata-se de uma sucessão muito rápida de colapsos.

Essas ocorrências são naturais ou resultado da ação humana?

Esse é um debate subjetivo – mas muitos cientistas acham que é devido ao aquecimento do planeta provocado pelo homem. O aumento da produção de gases do efeito estufa, que armazenam o calor, por seres humanos, resulta tanto no aquecimento do ar quanto dos oceanos. Assim, essas placas de gelo sentem o aquecimento tanto na parte de baixo quanto na parte de cima – e sabemos que isso afeta a saúde da plataforma de gelo.

A questão é: ela teria desmoronado naturalmente? Ou o aquecimento provocado pelo homem foi "a gota d'água", por assim dizer? Muitos cientistas acreditam que isso é um sinal do que está por vir. E é isso que realmente nos preocupa.

Quais são as consequências de todo aquele gelo se soltar no oceano?

Os cientistas sabem que os níveis dos oceanos estão subindo alguns milímetros por ano. Mas vemos que esse aumento tem acelerado cada vez mais. Se você perguntar aos oceanógrafos como os mares vão estar por volta de 2100, a opinião geral é que o nível das águas estará um metro acima do atual.

Isso vai resultar num deslocamento de pessoas em todo o mundo. Nos EUA, a cidade de Miami é a nossa garota-propaganda para a ameaça do nível do mar. A cidade será perdida e não há nada que se pode fazer para salvá-la. É algo impressionante se você pensar em termos de custos econômicos e consequências sociais de ter de realocar cidades inteiras e partes de países.

Mesmo assim, o presidente Donald Trump retirou os EUA do Acordo de Paris. Em sua opinião, quais as chances de o governo americano mudar sua atual trajetória em termos de mudanças climáticas?

Na noite da eleição, os cientistas sabiam que o presidente Trump iria retirar o país do Acordo de Paris. Finalmente, escutamos a notícia oficial [no início de junho] – e para muitos de nós, isso trouxe estranhamente uma sensação de alívio.

Estávamos com muito medo que os Estados Unidos permanecessem no Acordo de Paris e o sabotassem por dentro. Agora, sem Washington, outras nações têm a chance de liderá-lo. E sabemos que a economia está impulsionando a implantação de energias renováveis em todo o mundo, e que países como a China estão tomando grandes passos para se tornar líderes globais.

Também estou esperançoso de que outros Estados avancem e tomem o lugar de liderança dos EUA nesta área. Mas isso me entristece, porque significa que nos Estados Unidos, por exemplo, vamos comprar painéis solares e usinas de energia eólica de outros países. Nós não vamos exportá-los. Assim, trata-se de uma verdadeira oportunidade para outras nações, e de uma enorme perda econômica para os EUA.

Antarktis Riss im Larsen-C-Schelfeis

Imagem da fenda na Larsen C disponibilizada pela Nasa

E com a saída dos EUA do Acordo de Paris, quais serão as consequências para as pesquisas sobre o clima?

O governo Trump quer cortar drasticamente os gastos com a pesquisa climática. Ou seja: fechar os olhos e os ouvidos dos cientistas de forma que não saibamos o que está acontecendo em lugares como a plataforma de gelo Larsen C. E isso seria devastador para a nossa compreensão das mudanças climáticas.

Mas isso é, novamente, uma oportunidade para outros países se tornarem líderes na ciência, para avançar e substituir alguns dos fundos que os EUA vão cortar. Se esses cortes de fundos americanos não forem substituídos por outros países, será um desastre absoluto para a nossa compreensão do clima na Terra.

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Da Patagônia rumo ao Polo Sul

Cerca de 80 pessoas de 30 nacionalidades participaram da primeira Bienal Antártica. Idealizada pelo artista russo Alexander Ponomarev, a expedição artística partiu de Ushuaia, na Patagônia argentina, no dia 17 de março. Foram ao todo 11 dias de evento, que contaram com perfomances e instalações sobre as águas e terras polares.

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Curiosidade animal

Um pinguim curioso resolveu trocar uma ideia com a câmera 360º. Registro da Ilha Cuverville, na Antártida.

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Baleias por todo lado

Durante a passagem pelo continente gelado, nosso navio pernoitou entre baleias. No Canal Errera havia 50 delas, segundo levantamento de cientistas.

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Muitos pinguins

O navio da Bienal Antártica passou alguns dias no Canal Errera, conhecido não somente pela diversidade de baleias, mas também pelas colônias de pinguins.

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Turismo sustentável

A Antártida recebe cerca de 30 mil visitantes todos os anos. O turismo é coordenando principalmente pela Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártida, que zela pela preservação do território. Nada pode ser deixado nem tirado do continente gelado.

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A natureza é quem manda

Na Antártida, é obrigatório manter uma distância mínima de 5 metros da vida selvagem. A não ser que os animais se aproximem por conta própria: neste caso, aproveite para pegar a câmera e registrar o momento!

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Trabalho a quatro mãos

Na foto, Yasuaki Igarashi (esquerda) apresenta sua instalação ao idealizador da Bienal, Alexander Ponomarev. Juntos eles trançaram uma corda que seria usada para empinar uma pipa. O entrelaçamento dos fios simbolizou o encontro das 30 nacionalidades que participaram do evento.

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"Somos apenas hóspedes"

Inspirado pelo caráter nômade desta Bienal, o arquiteto alemão Gustav Düsing montou um barraca: "Nós somos apenas hóspedes aqui. Procurei me adequar às condições do meio e criar algo temporário com a menor quantidade de material possível – esta é, para mim, a resposta mínima à questão arquitetônica da Antártida."

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Impossível estar mais à vontade

Em pleno frio antártico, o russo Andrey Kuzkin se apresentou ao público como veio ao mundo. A performance consistiu em ficar nu de ponta-cabeça com os ombros enterrados no chão. Andrey ficou assim por cerca de 20 minutos, respirando através de uma mangueira. O plano dele é realizar a performance 99 vezes ao redor do mundo – e ele já está na de número 50.

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O céu sobre a Antártida

O chamado "albedo", a reflexão da luz solar pela imensidão branca coberta de neve, inspirou diversos trabalhos apresentados nesta bienal.

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A ameaça climática

Entre os temas abordados na Bienal Antártica também esteve a preservação dos glaciares. Os gigantes brancos têm sofrido retração acelerada nas últimas décadas.

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Um espetáculo de luz e gelo

O brasileiro Alexis Anastasiou fez uma projeção de luz sobre um iceberg na Antártida. Mesclando uma estética contemporânea com a de desenhos rupestres, o artista recriou momentos marcantes da história da humanidade.

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30 minutos de silêncio

Na Baía Paraíso, a curadoria da Bienal propõs um happening aos participantes: permanecer meia hora em absoluto silêncio para contemplar e absorver a grandeza do local.

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A equipe da DW na Antártida

A repórter Helena Coelho e a cinegrafista Sabrina Walker embarcaram nesta expedição pelo continente gelado.

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A cena final

Nossa aventura terminou com o retorno à América do Sul, que nos recebeu com este pôr do sol digno da Terra do Fogo.

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