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MídiaAustrália

Murdoch vai deixar comando do seu império de mídia

21 de setembro de 2023

Magnata australiano de 92 anos, que redefiniu paisagem da mídia com grife de jornalismo agressivo e a serviço de causas ultraconservadoras, vai passar comando de tabloides e do canal Fox News para um de seus filhos.

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Rupert Murdoch
Murdoch construiu império bilionário a partir de um pequeno jornal australiano. No processo, remodelou o jornalismo e influenciou a política – para pior, segundo críticos Foto: Arthur Edwards/News International via Getty Images

Rupert Murdoch anunciou sua sucessão. O magnata australiano de 92 anos, um dos últimos barões da imprensa mundial e que exerceu nas últimas décadas influência política em três continentes, anunciou nesta quinta-feira (21/09) que vai deixar o comando da Fox Corp. – controladora dos canais Fox e Fox News – e da News Corp. – responsável pelo The Wall Street Journal, os tabloides The Sun e The New York Post e o diário The Times, entre outros.

De acordo com um comunicado divulgado pelas empresas, Rupert Murdoch pretende a partir de novembro se limitar a atuar como presidente emérito dos conselhos das companhias. O comando das operações passará a ser exercido pelo seu filho Lachlan Murdoch a partir de agora.

Em uma carta enviada aos funcionários, Rupert Murdoch disse que está deixando o comando das empresas "em boa saúde, assim como eu". "Temos todas as razões para sermos otimistas em relação aos próximos anos – certamente eu estou, e planejo estar aqui para participar deles. Mas a batalha pela liberdade de expressão e, em última instância, pela liberdade de pensamento, nunca foi tão intensa", escreveu.

Lachlan Murdoch, de 52 anos, por sua vez, agradeceu o pai. "Em nome dos conselhos de administração da FOX e da News Corp, das equipes de liderança e de todos os acionistas que se beneficiaram de seu trabalho árduo, parabenizo meu pai por sua notável carreira de 70 anos”, escreveu Lachlan Murdoch.

Rupert Murdoch e John F. Kennedy em 1962
Murdoch (dir.) junto com o presidente americano John Kennedy em 1962. Magnata colocou seus jornais a serviço de causas políticas e a partir dos anos 1990 passou a promover ultradireita nos EUAFoto: Keystone/Hulton Archive/Getty Images

Trajetória, influência e escândalos

Atuante desde os anos 1950, Murdoch construiu um império transcontinental de mídia a partir da Austrália. Nascido em 1931, ele iniciou sua trajetória na área ao herdar um pequeno jornal após a morte de seu pai. Sob seu comando, o negócio prosperou, e ele passou a adquirir outras publicações na Austrália e na Nova Zelândia. Um padrão já se desenhava nessa época: os jornais de Murdoch apoiavam abertamente candidatos ou governos.

Em 1969, ele expandiu seus negócios para o Reino Unido, com a aquisição do tabloide News of The World. Em 1974, foi a vez de comprar o tabloide The Sun e mais tarde, em 1981, o tradicional jornal The Times. Ainda nos anos 1970, fincou o pé pela primeira vez nos EUA ao adquirir o The New York Post.

UK Rupert Murdoch 1981
Murdoch (centro) em 1981, quando adquiriu o tradicional diário britânico The TimesFoto: Keystone/Hulton Archive/Getty Images

Nesses processos de aquisição, Murdoch mudou radicalmente a linha editorial de várias publicações, favorecendo uma grife de jornalismo agressivo e populista. A preferência por políticos variava de acordo com a ocasião. Nos anos 1980, seus jornais no Reino Unido apoiavam abertamente a premiê conservadora Margaret Thatcher – especialmente durante a Guerra das Malvinas –, mas nos anos 1990 passaram a defender os trabalhistas de Tony Blair, para depois nos anos 2000 voltar a apoiar os conservadores.

Em vários casos, as ambições comerciais suplantaram regras jornalísticas, como no caso em que o Sunday Times, de sua propriedade, publicou, a mando do próprio Murdoch, a fraude dos chamados "Diários de Hitler” em 1983, mesmo diante das dúvidas da equipe editorial. Em 1989, a cobertura repleta de mentiras do The Sun sobre a tragédia do Estádio de Hillsborough – na qual morreram 97 pessoas – levou o tabloide a ser boicotado por décadas por parte significativa da população da cidade de Liverpool.

 Rebekah Brooks
Protegida de Murdoch, a ex-editora e ex-executiva Rebekah Brooks acabou na prisãoFoto: Andrew Cowie/AFP/Getty Images

Nos anos 1980, Murdoch também adquiriu nos EUA o estúdio de cinema Twentieth Century Fox – posteriormente revendido para a Disney – e a editora HarperCollins. Também lançou um canal de TV aberta, a Fox, responsável por programas notáveis dos anos 1990 como Os Simpsons e Arquivo X.

Já um bilionário à época, Murdoch lançou em 1996 aquele que seria de longe o veículo mais influente – e, para alguns, nefasto – do seu império de mídia: o canal de notícias Fox News.

Com uma linha de ultradireita e de ataque a causas associadas à esquerda ou ao Partido Democrata, a Fox News acabaria por ajudar a remodelar a paisagem política dos EUA, promovendo figuras do Partido Republicano, entre candidatos neoconservadores e, mais tarde, ultradireitistas como Donald Trump – embora neste último caso o relacionamento tenha sido, por vezes, tumultuado. Após alguns anos, a Fox News se tornou o canal a cabo mais assistido dos EUA, deixando redes tradicionais de notícias como a CNN para trás.

Mas a linha agressiva e muitas vezes displicente com a ética jornalística promovida por Murdoch cobrou seu preço algumas vezes. Em 2011, o tabloide News of The World, que marcou a entrada do magnata no Reino Unido, foi dissolvido após a revelação que seus editores e repórteres haviam montado uma vasta rede de grampos telefônicos para alimentar a publicação com fofocas e escândalos. O caso levou à prisão de vários editores e executivos, incluindo Rebekah Brooks, uma protegida de Murdoch, que chefiava o braço britânico da News Corp.

Sede da Fox News
Joia da coroa do império de Murdoch, canal Fox News enfrenta processos bilionáriosFoto: NDZ/STAR MAX/IPx/picture alliance

A saída de Murdoch do comando das empresas ocorre cinco meses depois de a Fox News, a principal joia do seu império, pagar US$ 787,5 milhões (R$ 3,8 bilhões) no âmbito de um processo por difamação movido pela empresa de urnas eletrônicas Dominion, que acusou a Fox de ter disseminado propositalmente alegações falsas sobre a companhias nas eleições americanas de 2020.

A Fox ainda enfrenta um processo de US$ 2,7 bilhões (R$ 13,3 bilhões) movido pela Smartmatic, outra empresa de tecnologia eleitoral, que também acusa a Fox de ter disseminado informações falsas sobre sua atuação no pleito presidencial dos EUA.

Todos esses problemas já vinham levantando questionamentos sobre a saúde das empresas de Murdoch e alimentando especulações sobre sua saída. As questões sobre quem acabaria por comandar seu império até inspiraram uma série de sucesso no canal HBO, Succession, que pertence a um conglomerado rival de mídia, a Warner Bros. Discovery.

"Mundo está pior por causa de Rupert Murdoch", diz ONG

Após o anúncio da sua sucessão na News Corp. e Fox Corp., Angelo Carusone, presidente da ONG Media Matters for America, um observatório independente de mídia dos EUA, afirmou que o legado deixado por Rupert Murdoch é de "trapaça, destruição e morte".

"Onde quer que as suas propriedades midiáticas existam em todo o mundo, elas ignoram as práticas jornalísticas básicas e injetam desinformação venenosa no discurso público. Na Fox News, Murdoch criou uma força destrutiva única na democracia e na vida pública americana, que abriu uma era de divisão onde a política racista e pós-verdade prospera. As propriedades midiáticas de Rupert Murdoch ajudaram a transformar o Partido Republicano num culto de morte autoritário trumpista. Rupert Murdoch permitiu que a Fox News alimentasse o ataque insurrecional ao Capitólio dos EUA, deixando as suas estrelas mentirem intencionalmente e conscientemente para minar as nossas eleições democráticas."

"Dada a escala global sem paralelo da sua presença nos meios de comunicação social, ninguém no planeta fez mais para espalhar mentiras que negam as alterações climáticas e minam os esforços para enfrentar a crise do que Rupert Murdoch. O mundo está pior por causa de Rupert Murdoch. Ninguém deveria amenizar os danos que ele causou."

Carusone ainda alertou que Lachlan Murdoch provavelmente intensificará essas políticas. "Para piorar as coisas, seu ato de despedida – entregar as rédeas a Lachlan Murdoch – é semelhante a jogar um fósforo nos gravetos que ele empilhou. Lachlan certamente é um líder menos competente que seu pai, mas sua visão de mundo é consideravelmente mais brutal. Sua liderança provavelmente apenas intensificará a má conduta, a desinformação e a malevolência que definiram as empresas de Murdoch."