Terroristas do Sri Lanka: família rica e boa educação

Autoridades identificam oito dos nove terroristas, que seriam membros de famílias ricas e teriam alto nível educacional. Investigação sugere que haveria de fato ligação dos suicidas com o "Estado Islâmico".

Alto nível educacional, membros de famílias abastadas de classe média ou média alta e, consequentemente, com recursos financeiros próprios. Segundo as autoridades do Sri Lanka, este é o perfil dos nove terroristas suicidas que executaram os atentados no Domingo de Páscoa em hotéis de luxo e três igrejas católicas, que deixaram ao menos 359 mortos e mais de 500 feridos.

Terrorismo | 23.04.2019

Com o andamento das investigações, começaram a surgir detalhes sobre os terroristas. A reivindicação da organização "Estado Islâmico" (EI) pela responsabilidade dos atentados é levada a sério pelos investigadores. Caso essa conexão seja confirmada, os ataques no Sri Lanka serão os mais letais já vinculados ao grupo extremista.

Por meio de sua agência de notícias, a organização jihadista divulgou um vídeo que mostra oito homens – todos exceto um com rostos cobertos – sob uma bandeira negra do "Estado Islâmico", declarando lealdade a seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi. O único homem no vídeo com o rosto descoberto era Mohamed Zahran, um pregador do Sri Lanka conhecido por suas visões extremistas.

O vice-ministro da Defesa do Sri Lanka, Ruwan Wijewardene, afirma que houve no total foram nove terroristas suicidas – oito foram identificados, entre eles uma mulher.

"A maioria dos terroristas é bem-educada, vem de famílias economicamente fortes. Alguns deles foram estudar no exterior", disse Wijewardene. "Vários viajaram ao exterior e mantiveram contatos com o exterior. Temos conhecimento que um deles foi estudar Direito no Reino Unido e concluiu seu estudo universitário na Austrália. Parceiros estrangeiros, incluindo o Reino Unido, estão nos ajudando nessas investigações."

Funcionários da inteligência cingalesa e o primeiro-ministro do país, Ranil Wickremesinghe, afirmaram acreditar que Zahran, um pregador de língua tâmil do leste do Sri Lanka, pode ter sido o idealizador dos atentados.

Imagem divulgada pelo "Estado Islâmico" mostra o que seriam os terroristas responsáveis pelos ataques no Sri Lanka

O interesse tem sido focado, especialmente, na família de um rico comerciante no setor de especiarias. Dois de seus filhos, ambos com menos de 30 anos de idade, detonaram as mochilas que carregavam na fila para o café da manhã de dois hotéis de luxo no centro de Colombo, a principal cidade do país. Os dois eram membros-chave do grupo radical islâmico NTJ, que o governo já culpou por desfigurar estátuas budistas.

O endereço que um dele deixou quando se registrou como hóspede no hotel levou os agentes policiais ao seu domicílio familiar. Quando as forças de segurança se preparavam para entrar ocorreu uma detonação – a esposa de um dos irmãos detonou os explosivos instalados na casa. Ele e seus dois filhos morreram, segundo fontes policiais.

Aparentemente, os dois irmãos influenciaram outros membros de sua família. Vários deles, incluindo seu pai, estão entre os quase 60 detidos, conforme divulgou Wijewardene.

As autoridades também divulgaram imagens de câmeras de vigilância que mostram um jovem magro de barba carregando uma mochila grande e visivelmente pesada próxima da paróquia de São Sebastião, em Negombo, nos arredores de Colombo.

As imagens mostram o homem atravessando uma praça e, num aparente ato de reflexo, acaricia a cabeça de uma garota que atravessou seu caminho acompanhada por seu pai. Em seguida, o vídeo o mostra com a mochila entrando na igreja, na qual houve mais de 110 mortos.  

O governo suspeita que dois grupos islâmicos do Sri Lanka – o National Thowfeek Jamaath (NTJ), do qual se acredita que Zahran fosse membro, e o Jammiyathul Millathu Ibrahim (JMI) – foram responsáveis, com ajuda externa. 

O governo cingalês e dos EUA afirmaram que a escala e a sofisticação dos atentados coordenados sugerem o envolvimento de uma organização internacional como o EI. Uma equipe do FBI (a polícia federal americana) está no Sri Lanka. Reino Unido, Austrália e os Emirados Árabes Unidos também ofereceram ajuda de inteligência.

Os atentados abalaram a relativa calmaria que imperava no país de maioria budista desde o fim, há dez anos, de uma longa guerra civil contra os separatistas "Tigres de Tâmil", em sua maioria hindus, e aumentou os temores de um retorno à violência sectária.

Os 22 milhões de habitantes do Sri Lanka incluem as minorias cristã, muçulmana e hindu. Até agora, os cristãos haviam conseguido evitar conflitos na ilha e as tensões entre as comunidades.

O governo cingalês está na defensiva sobre as revelações de que alertas específicos de agências de inteligência de possíveis ataques iminentes foram ignorados. Uma rixa política entre o presidente do país, Maithripala Sirisena, e o primeiro-ministro teria impedido a avaliação das informações e uma condução adequada.

"Trata-se de um grande lapso no compartilhamento de informações de inteligência", disse Wijewardene. "Temos que assumir responsabilidade."  

PV/afp/ap/rtr/ots

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube 

WhatsApp | App | Instagram | Newsletter

Atentados no Sri Lanka

Arcebispo pede calma após ataques

Uma imagem de Jesus Cristo coberta de sangue após explosão na Igreja de São Sebastião, em Negombo, uma das cidades do país com maioria católica. O arcebispo de Colombo, Malcolm Ranjith, chamou os autores dos ataques de “animais”, mas pediu para que a população fique calma e não procure fazer “justiça com as próprias mãos”.

Atentados no Sri Lanka

Igrejas atingidas no Domingo de Páscoa

Interior da Igreja de São Sebastião, em Negombo, no oeste do país, após ataque. O Sri Lanka registrou oito explosões em diferentes pontos do país no domingo (21/04) de Páscoa. Três igrejas e quatro hotéis foram atingidos. Governo aponta que mais de 250 pessoas morreram.

Atentados no Sri Lanka

Polícia procura autores

Um policial participa de uma operação de busca em uma residência em um subúrbio da capital do Sri Lanka, Colombo. Governo prendeu sete pessoas após os atentados e apontou que maioria das ações foram cometidas por terroristas suicidas

Atentados no Sri Lanka

Igrejas atingidas em diferentes pontos do país

Policiais examinam o exterior da Igreja de Sião, em Batticaloa, no leste do Sri Lanka, que também estava entre os alvos dos atentados. Templos estavam celebrando missas para marca o Domingo da Ressureição. Os cristãos foram 7% da população do Sri Lanka, que tem maioria budista e uma parcela significativa de islâmicos.

Atentados no Sri Lanka

Ataques evocam trauma da guerra civil

O interior da Igreja de Santo Antônio, na capital, Colombo. Ministro das Finanças do país, Mangala Samaraweera, disse que os ataques são uma tentativa de empurrar o Sri Lanka mais uma vez para uma situação de violência, tal como ocorreu na longa guerra civil que castigou o país entre os anos 1980 e 2000.

Atentados no Sri Lanka

Papa condena atentados

Uma imagem de Nossa Senhora danificada no atentado à Igreja de Santo Antônio, em Colombo. O Papa Francisco os ataques enquanto fazia a benção de Páscoa diante de milhares de fiéis na Praça São Pedro, no Vaticano. "Quero expressar minha sincera proximidade com a comunidade cristã [do Sri Lanka], ferida enquanto se reunia em oração, e a todas as vítimas de tal violência cruel”, disse Francisco

Atentados no Sri Lanka

Hotéis entre os alvos

Os ataques também miraram hotéis de luxo frequentados por estrangeiros no Sri Lanka. Aqui, policiais examinam a área atingida por explosão no Hotel Shangri-La, em Colombo. Três hotéis de luxo e uma pensão foram alvo de explosões.

Atentados no Sri Lanka

Estrangeiros entre as vítimas

Turistas e cidadãos do Sri Lanka diante de um hotel em Colombo. Números iniciais apontaram que pelo menos três dezenas de cidadãos estrangeiros morreram nas explosões que atingiram os hotéis. O turismo da ilha vem passando por um período de crescimento robusto desde 2010, quando a guerra civil no país chegou ao fim.

Atentados no Sri Lanka

Toque de recolher e bloqueio de redes sociais

Soldado diante da Igreja de Santo Antônio, em Colombo, um dos alvos dos ataques. Governo do país impôs um toque de recolher a partir deste domingo e ordenou o bloqueio de redes sociais como o Facebook e o Instagram para impedir a difusão de boatos. As escolas do país também vão permanecer fechadas até quarta-feira e todos os policiais de folga foram convocados.

Conteúdo relacionado

Siga-nos