Mali vai a votos na segunda volta das presidenciais

Mais de 8,4 milhões de malianos são chamados a votar, este domingo (12.08), na segunda volta das presidenciais, nas quais o Presidente Ibrahim Boubacar Keïta é considerado favorito face ao seu opositor Soumaïla Cissé.

A segunda volta é uma repetição de uma disputa de 2013 que Ibrahim Boubacar Keïta, de 73 anos, venceu com grande vantagem sobre o ex-ministro das Finanças, Soumaïla Cisse. Entretanto, as eleições deste ano são marcadas pelo fracasso do chefe de Estado em reduzir a onda de violência jihadista e étnica, além das crescentes acusações de fraude eleitoral por parte da oposição.

O Presidente Ibrahim Boubacar Keïta alertou contra "manobras" e "encenações" de fraude eleitoral, pouco depois de a oposição ter denunciado um processo de manipulação em curso. "Há manobras que estão em curso para fazer acreditar que estamos numa lógica de fraude", afirmou Keïta aos media após votar este domingo num bairro pobre de Bamako, situado perto da sua casa.

"Como enganar quando há a garantia da estima do seu povo? Porquê tentar enganar", questionou o candidato à reeleição presidencial, pedindo que não haja resposta a "qualquer tipo de provocação".

Poucas horas antes, Soumaïla Cissé, ex-ministro das Finanças, de 68 anos, tinha dito que os boletins de voto estão a "circular pelo país" para facilitar a vitória do candidato que está no poder.

Numa conferência de imprensa à noite, o seu chefe de campanha, Tiébilé Dramé, exibiu um caderno de cinquenta boletins selados, mas apreendidos por um "agente de Bamako" encarregado pela distribuição, como prova da manipulação do escrutínio.

Resultados contestados

Na primeira ronda, a 29 de julho, os resultados apresentados pela presidente do Tribunal Constitucional, Manassa Danioko, mostraram Ibrahim Boubacar Keïta, também conhecido por IBK, como o mais votado, com 41,70% dos votos. Cissé, que reuniu 17,78% dos boletins válidos, contestou estes resultados, alegando que não eram "verdadeiros ou credíveis".

Segurança das assembleias de votos é feita por soldados em Bamako

A oposição, que acusou o Governo de utilizar o clima de insegurança no país para manipular as eleições, apresentou vários recursos contra os resultados da primeira volta, mas foram rejeitados pelo Tribunal Constitucional.

Segurança

O primeiro turno foi marcado pela violência e ameaças de grupos armados que levaram a centenas de assembleias de voto a serem fechadas, principalmente na região central sem lei. O país vive uma situação de insegurança e crise política desde o golpe de Estado militar de 2012, a que se seguiu uma rebelião independentista dos tuaregues no norte, apoiados por grupos jihadistas locais. 

No ato eleitoral deste domingo, que decorre entre as 8h e às 18h locais, a segurança será garantida por 36 mil militares, cerca de 20% mais que na primeira volta, a 29 de julho. Neste sábado, véspera da votação, os serviços de segurança disseram que interromperam uma conspiração para realizar "ataques direcionados" na capital, Bamako.

Comunidade internacional acompanha de perto

A comunidade internacional deverá seguir com atenção esta segunda ronda, mas o desfecho da votação deverá ter pouco efeito sobre os milhares de milhões de dólares de ajuda que Bamako recebe, de acordo com especialistas citados pela agência France-Presse.

Filas para votar na capital do país

Com cerca de cem observadores na primeira volta eleitoral, a União Europeia, o maior doador internacional do Mali, exigiu a publicação de resultados discriminados e pediu mais transparência na segunda ronda, bem como a garantia de acesso a todos os locais de votação – na primeira volta, cerca de 250 mil eleitores não conseguiram votar no centro e no norte do país.

A diplomacia maliana instou a UE a "não atrapalhar o processo eleitoral". Entre as contribuições diretas da Comissão Europeia e as dos Estados-Membros, os 28 pagam anualmente ao Governo maliano, para o seu bom funcionamento, cerca de 400 milhões de euros, num total de projetos em curso superiores a dois mil milhões de euros.

Os Estados Unidos da América, por sua parte, anunciaram que vão reduzir drasticamente o apoio de cerca de 100 milhões de dólares (87,55 milhões de euros) entre 2017 e 2018, dos quais 81,5 milhões previstos para este ano, mas não precisaram qual será a verba nem os motivos para o corte.

Além da UE, o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento e o Canadá financiam diretamente o orçamento operacional do Governo do Mali, um dos países mais pobres do mundo.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Tesouros históricos

Os manuscritos de Tombuctu são documentos históricos sem preço, que relatam a busca pelo conhecimento no mundo islâmico há muitos séculos. Tombuctu foi, em tempos, o centro islâmico da pesquisa e erudição em África.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Contrabandeados em caixas de chumbo

Quando os islamitas começaram a destruir monumentos no norte do Mali em 2012, um grupo de cidadãos consternados transportou clandestinamente centenas de milhares de manuscritos de Tombuctu para a capital maliana, Bamako, no sul do país. Aqui foram depositados num edifício de residências, para aguardar a restauração e digitalização.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

O salvador dos manuscritos

Abdel Kader Haidara organizou a operação de resgate. O proprietário de uma biblioteca não só se preocupou em salvar os seus próprios manuscritos, mas também todos os documentos históricos de Tombuctu em risco de destruição.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Nasce uma biblioteca digital

Os manuscritos estão agora a ser digitalizados na biblioteca de Bamako. Cada página é fotografada individualmente. A imagem é controlada e depois catalogada num arquivo central. O gigante da internet, Google, já manifestou interesse na coleção.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Acesso geral aos manuscritos

A digitalização tem dois objetivos: preservar os manuscritos para a posteridade, caso os originais não resistam à humidade e ao calor de Bamako. E garantir o acesso a todos os interessados. Antes do conflito armado no norte e do resgate dos documentos não existia qualquer plano para os digitalizar.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Caixas feitas à medida

Depois de serem digitalizados, os manuscritos são colocados em caixas de cartão isentas de ácidos. Aqui podem ser guardados para a posteridade. Uma vez que os manuscritos não têm todos o mesmo tamanho, as caixas tiveram que ser produzidas em trabalho manual.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Uma biblioteca vazia

Na Biblioteca Comemorativa de Mamma Haidara, em Tombuctu, não há um único livro. E não é certo que a biblioteca volte a albergar documentos históricos no futuro. Muitos responsáveis acreditam que os documentos estão a salvo em Bamako. Mas também há quem receie pela identidade histórico-cultural de Tombuctu, caso os manuscritos não regressem a casa.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Biblioteca em ruínas

O Instituto Ahmed Baba Institute foi criado com capitais da Fundação Aga Khan, África do Sul e Arábia Saudita. Para além de albergar a biblioteca, também tinha equipamento para a digitalização e restauração. Hoje, o instituto está vazio e dilapidado.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Monumento aos manuscritos perdidos

Quando chegaram a Tombuctu, os islamitas deitaram fogo a muitos manuscritos no pátio do Instituto Ahmed Baba. Pretendiam assim demonstrar o seu poder ao ocidente e à UNESCO. Cerca de 4000 manuscritos foram destruídos. Os restos queimados servem hoje de memorial ao património perdido.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Tombuctu vai cair na insignificância?

Quando Tombuctu perdeu a sua importância económica no século XX, descobriu o turismo como fonte de receitas alternativa. Mas o conflito de 2012 espantou os turistas, pelo que Tombuctu corre agora o perigo de perder também a sua relevância cultural, tanto mais que já não tem os manuscritos. E ninguém sabe se eles vão regressar.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Sobram alguns manuscritos

Ainda existem algumas bibliotecas privadas. Mas em Timbuktu já é considerada uma biblioteca uma dúzia de páginas que cabem numa pele de carneiro. Este habitante de Timbuktu herdou alguns manuscritos do seu avô. É o que possui de mais valioso.

Conservar os manuscritos de Tombuctu

Um futuro incerto

A situação política no Mali é tensa, e o exército maliano é demasiado fraco para garantir a estabilidade e segurança. Muitos habitantes de Tombuctu que fugiram da cidade optaram por não regressar. Eles não confiam na paz precária e a sua cidade enfrenta um futuro incerto.