Sudão: por que onda de protestos não abala Omar al-Bashir?

Opositores avaliam que serviços prestados pelo Presidente aos interesses internacionais fazem com que ele se sinta intocável, mesmo diante de manifestações favor da sua saída.

Dececionante, mas não surpreendente. Assim a oposição classifica a reação dos Estados ocidentais à onda de protestos no Sudão. As manifestações que tiveram início em dezembro, com origem no aumento do preço do pão e do combustível, acabaram por exigir também a renúncia do Presidente Omar al-Bashir, já há três décadas no comando do país.

Mohamed Hassan, do Partido do Congresso Sudanês na oposição, afirma que o posicionamento favorável do Governo sudanês no combate à emigração clandestina e ao terrorismo desvia a atenção internacional de seus atos de repressão.

"Já esperávamos ter pouco apoio para as manifestações, pois a política internacional rege-se por interesses. O Governo sudanês sabe servir esses interesses. Sobretudo no âmbito do combate ocidental à emigração clandestina de África, que Cartum tenta impedir. Além disso o Governo empenha-se na luta contra o terrorismo. Por isso os europeus estão na disposição de tolerar a repressão, a má gestão e a corrupção no Sudão", declarou.

Diferentes interesses em jogo

Além de contar com o silêncio dos Estados ocidentais, o Presidente Omar al-Bashir tem o apoio dos governos da região. Muitos dos soldados que combatem no Iémen na coligação militar liderada pela Arábia Saudita são sudaneses.

Foto ilustrativa: Bombardeamento efetuado nos arredores de Sana, capital do Iemen

O Egito está interessado na estabilidade no Sudão, sobretudo para impedir a passagem de armas para a Líbia. Para Mohamed Hassan, há ainda outros interesses vindos do exterior.

"Os Estados Unidos da América decidiram retirar-se da Síria. Por isso, procuram por mercenários que possam substituir as suas tropas. E não há nenhum regime que venda mercenários tão baratos como o Sudão", afirmou.

Também os países membros da União Europeia cooperam lindamente com Bashir, diz o político. Analistas concordam e apontam como objetivo comum o controle de fronteiras, para impedir os rebeldes do Darfur a venderem os seus préstimos como mercenários aos rebeldes líbios, mas também para cortar a grupos terroristas islamitas a possibilidade de movimentação entre o Sahel e o Corno de África. Perante este cenário, o Presidente sabe que nada tem a temer dos protestos dos seus cidadãos. Os serviços que presta aos interesses internacionais são o seu seguro político.

Regime opressor

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MEDIATECA | 08.01.2019

Sudão: por que onda de protestos não abala Omar al-Bashir?

O balanço político do Governo de Omar al-Bashir é sombrio. O Presidente é procurado com mandado de captura pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por genocídio e crimes de guerra. Além disso, Cartum não conseguiu ainda resolver os conflitos com grupos rebeldes no Darfur e nas montanhas Nuba. Organizações dos direitos humanos criticam o Governo pela violação de direitos fundamentais.

Desde meados de dezembro, quando os protestos começaram, mais de 800 pessoas foram detidas. A última manifestação, convocada pela oposição, foi no domingo (06.01.). Os opositores justificaram as ações apontando para o isolamento político e económico do Presidente e para a perda de confiança da população no chefe de Estado.

Os protestos continuaram não obstante a violência até que Bashir anuiu a nomear uma comissão de inquéritos liderada sob tutela do Ministério da Justiça. Informações oficiais do Governo confirmam 19 mortos na sequência dos confrontos. Grupos internacionais de defesa dos direitos humanos falam em mais mortes. Segundo a Amnistia Internacional, seriam pelo menos 37 pessoas.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Do golpe de Estado até hoje

Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 75 anos, assumiu a Presidência da Guiné Equatorial em 1979, ainda antes de José Eduardo dos Santos. Teodoro Obiang Nguema derrubou o seu tio do poder: Francisco Macías Nguema foi executado em setembro de 1979. A Guiné Equatorial é um dos países mais ricos de África devido às receitas do petróleo e do gás, mas a maioria dos cidadãos não beneficia dessa riqueza.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

O Presidente que adora luxo

Paul Biya é chefe de Estado dos Camarões há 34 anos. Muitos dos camaroneses que falam inglês sentem-se excluídos pelo francófono Biya. E o Presidente também tem sido alvo de críticas pelas despesas que faz. Durante as férias, terá pago alegadamente 25 mil euros por dia pelo aluguer de uma vivenda. Na foto, está acompanhado da mulher Chantal Biya.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Quase na reforma

Yoweri Museveni já foi confirmado seis vezes como Presidente do Uganda. Nas eleições de 2021, o chefe de Estado de 72 anos não se poderá recandidatar – os candidatos não podem ser mais velhos do que 75 anos. Filho de pastores, teve uma carreira meteórica. Licenciou-se, tornou-se coronel e assumiu a dianteira política. No seu mandato, foram acrescentados direitos fundamentais na Constituição.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Procurado por genocídio

Omar al-Bashir é Presidente do Sudão desde 1993. Chegou ao poder em 1989 depois de um golpe de Estado sangrento. O Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, emitiu em 2009 um mandado de captura contra al-Bashir por alegada implicação em crimes de genocídio e de guerra no Darfur. Estima-se que mais de 300 mil pessoas foram mortas desde o início do conflito.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

"O Leão da Suazilândia"

Mswati III é o último governante absolutista de África. Há 31 anos que dirige o reino da Suazilândia. Acredita-se que tem 210 irmãos; o seu pai teve 70 mulheres. A tradição da poligamia continua a cumprir-se neste reinado - até 2013, Mswati III teve quinze esposas. A polícia costuma reprimir os protestos no reino.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

O sultão acima de tudo

Há quase cinco décadas que o sultão Haji Hassanal Bolkiah é chefe de Estado e Governo e ministro dos Negócios Estrangeiros, do Comércio, das Finanças e da Defesa do Brunei. Há mais de 600 anos que a política do país é dirigida por sultões. Hassanal Bolkiah, de 71 anos, pondera introduzir o apedrejamento para punir a infidelidade ou o corte da mão para castigar ladrões.

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Nas pegadas reais

Ao contrário de outros monarcas europeus, Hans-Adam II (esq.) não é apenas príncipe: é também chefe de Estado do Liechtenstein. Assumiu do pai o "negócio de família" em 1989 e, em 2004, nomeou o filho Aloísio (dir.) como seu representante, embora continue a chefiar o país.

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De pastor a parceiro do Ocidente

Idriss Déby tornou-se Presidente do Chade em 1990. Filho de pastores, Déby formou-se em França como piloto de combate. Após várias guerras civis e tentativas de golpes de Estado, o país estabilizou politicamente em 2008. Déby tornou-se, entretanto, um parceiro do Ocidente na luta contra o extremismo islâmico na região do Sahel.

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Fã de si próprio

Robert Mugabe chegou a ser o mais velho chefe de Estado do mundo (com uma idade de 93 anos). O Presidente do Zimbabué esteve quase 30 anos na Presidência do país. Antes foi o primeiro-ministro. Naquela época, aconteceram vários massacres que vitimaram milhares de pessoas. Também foi criticado por alegada corrupção. Após um levantamento militar, renunciou à Presidência em 21 de novembro de 2017.

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O adeus

José Eduardo dos Santos foi, durante 38 anos, chefe de Estado de Angola. Mas não se recandidatou nas eleições de 2017. Há anos que circulam rumores de que estará doente. A guerra civil terminou em 2002 durante o seu mandato. Muito melhorou desde então, mas grande parte da população continua a viver na pobreza e protestos de ativistas a pedir melhores condições de vida têm sido reprimidos.